sexta-feira, novembro 22, 2013

MEMÓRIA


Como veremos a seguir, o que denominamos memória inclui diferentes processos e funções cognitivas. De maneira geral, memória relaciona-se à nossa capacidade de guardar informação e utilizá-las posteriormente. Tal fato indica que o ser humano extrai informações de sua experiência imediata, isto é, adquire conhecimento e aprende, o que lhe dá mais recursos em termos de adaptação e sobrevivência.
De acordo com Izquierdo (2006, p. 9-12),

Memória é a aquisição, a formação, a conservação e a evocação de informações.
Podemos afirmar que somos aquilo que recordamos, literalmente. Não podemos fazer aquilo que não sabemos como fazer, nem comunicar nada que desconheçamos, isto é, nada que não esteja na nossa memória. Não podemos usar como base para projetar nossos futuros possíveis aquilo que esquecemos ou nunca aprendemos.
O conjunto das memórias de cada um determina aquilo que se denomina personalidade ou forma de ser. Um humano ou um animal criado no medo será mais cuidadoso, introvertido, lutador ou ressentido, dependendo mais de suas lembranças específicas do que de suas propriedades congênitas. Nem sequer as lembranças específicas dos seres clonados (como os gêmeos univitelinos) são iguais; as experiências de vida de cada um são diferentes.
Todos recordamos nossos pais, mas os pais de cada um de nós foram diferentes. Todos recordamos, em geral, vaga, mas prazerosamente, a casa onde passamos nossa primeira infância; mas a infância de uns foi mais feliz que a de outros [...]
O acervo das memórias de cada um nos converte em indivíduos.
Em seu sentido mais amplo, então, a palavra “memória” abrange desde os mecanismos que operam nas placas de meu computador, até a história de cada cidade, país, povo ou civilização, e as memórias individuais dos animais e das pessoas. Mas a palavra “memória” quer dizer algo diferente em cada caso, porque os mecanismos de sua aquisição, armazenamento e evocação são diferentes.
Não convém, portanto, entrar no terreno fácil das generalizações e considerar que nossa memória é “igual” a tal ou qual tipo de memória dos computadores. Meu computador tem chips e precisa estar ligado na tomada para funcionar; eu certamente não. Aliás, se eu colocar os dedos na tomada, sofrerei um choque e aprenderei uma memória da qual meu computador é profundamente incapaz: a de evitar colocar os dedos na tomada.
A memória humana é parecida com a dos mamíferos no que concerne a seus mecanismos essenciais e às áreas nervosas envolvidas e seu mecanismo molecular de operação; mas não no que se refere a seu conteúdo. Um ser humano lembra melodias e letras de canções ou como praticar medicina; um rato, não. Os seres humanos utilizam, a partir dos 2 ou 3 anos de idade, a linguagem para adquirir, codificar, guardar ou evocar memórias, as demais espécies animais, não.

Embora os autores indiquem a complexidade dos processos relacionados à memória e ao seu estudo, diferentes modelos teóricos e sistemas de classificação têm sido propostos. A seguir serão apresentados aspectos importantes no estudo da memória, propostos por alguns desses modelos e sistemas.


1 Diferentes sistemas de memória


A memória contém diferentes tipos de informação sobre o que se passa conosco e no contexto que nos cerca. Em outras palavras, quando falamos, por exemplo, de memória declarativa, podemos afirmar que esta não inclui apenas conteúdos diferentes daqueles da memória procedural, mas também que a primeira apresenta diferenças em relação à segunda, em termos de como são formadas e utilizadas. Os diferentes sistemas de memória também variam quanto á sua função nas diversas atividades humanas.
Um dos sistemas de memória indicado na literatura sobre o tema diz respeito à memória explícita e implícita. Para Graf e Schacter (citados por EYSENCK; KEANE, 2007, p. 228), a memória explícita “[...] manifesta-se quando o desempenho em uma tarefa requer uma recordação consistente de experiências anteriores.”. 
Já a expressão da memória implícita é facilitada na ausência de recordação consciente. A memória implícita está relacionada a habilidades e indica aperfeiçoamento no desempenho de tarefas, isto é, ocorre aquisição da informação sem que haja recordação (recuperação) das experiências que levaram a esta aquisição ou aperfeiçoamento. (ATKINSON et al., 2002).
As memórias declarativas são geralmente relacionadas à memória explícita, uma vez que são “[...] memórias que registram fatos, eventos ou conhecimento [...] porque nós, os seres humanos [...] podemos relatar como as adquirimos.”. (IZQUIERDO, 2006, p. 22).
Por outro lado, ainda de acordo com este autor, a memória procedural ou “As memórias de procedimentos são em geral adquiridas de maneira implícita, mais ou menos automática e sem que o sujeito perceba de forma clara que as está aprendendo [...]”.  (IZQUIERDO, 2006, p. 23).
Essa delimitação de diferentes sistemas, como apontado no primeiro parágrafo, indica, especialmente, uma “qualificação” do conteúdo armazenado. Entretanto, deve-se destacar que muitos estudiosos não consideram que esses sistemas sejam independentes um do outro. Tal afirmativa reforça a idéia da memória cumprir distintas e importantes funções de forma integrada, além de sua relação com outros processos psicológicos básicos, como a percepção, a linguagem e o pensamento.

Memória episódica e memória semântica

Embora não haja consenso em relação a uma clara distinção entre esses dois tipos de memória, para Tulving (citado por EYSENCK; KEANE, 2007, p. 231), primeiro a defender essa distinção, 

[...] a memória episódica refere-se ao armazenamento (e à recuperação) de eventos ou episódios específicos que ocorrem em um determinado lugar em um determinado momento. Por isso, lembrar o que você comeu hoje no café da manhã é um exemplo de memória episódica. Em contraste, a memória semântica contém informações sobre a nossa bagagem de conhecimento sobre o mundo. (TULVING citado por EYSENCK; KEANE, 2007, p. 231).



Segundo Eysenck e Keane (2007, p. 231), Tulving refere-se à memória semântica como um “dicionário mental”, uma vez que contém conhecimento sobre palavras e outros símbolos verbais, assim como significados, a relação entre eles, e regras de uso dos mesmos. 

Memória episódica e memória autobiográfica

Mesmo que muitos autores usem a expressão memória autobiográfica como sinônima de memória episódica, para Eysenck e Keane (2007), existem diferenças importantes. Para os autores, mesmo que pareçam similares, por serem relacionadas às experiências pessoais do passado,


Grande parte das informações na memória episódica é de certo modo trivial e lembrada apenas durante um curto período de tempo. Em contraste, a memória autobiográfica armazena informações para longos períodos de tempo sobre eventos e experiências de alguma importância para o indivíduo em questão. (EYSENCK; KEANE, 2007, p. 231).


Memória procedural

Segundo Eysenck e Keane (2007), a descrição sistemática desse tipo de memória ocorreu em 1980 e foi realizada por Cohen e Squire. Schacter e cols., citados por Eysenck e Keane (2007, p. 237), indicam que a memória procedural 


[...]‘refere-se à aprendizagem de habilidades motoras e cognitivas e manifesta- se em uma ampla série de situações. A aprendizagem de andar de bicicleta e a aquisição de habilidades de leitura são exemplos de memória procedural.’ O termo ‘aprendizagem de habilidades’ costuma ser usado para indicar o que Schacter e outros definiram como memória procedural e é demonstrado pela aprendizagem que se generaliza para uma série de outros estímulos além daqueles usados durante o treinamento.



2 Processos de memória


O processamento da memória, segundo a psicologia cognitiva, engloba  codificação, armazenamento e recuperação. De acordo com Sternberg (2008, p 190), 

A codificação refere-se a como você transforma um dado físico, sensorial, recebido em um tipo de representação que pode ser colocado na memória. A armazenagem diz respeito a como você retém a informação codificada na memória. A recuperação é a forma como você acessa a informação armazenada na memória.


Em outras palavras, podemos dizer que a codificação é a tradução da informação, por meio de códigos específicos, para que possa ser armazenada, isto é, mantida por maior ou menor tempo à disposição para ser recuperada em diferentes contextos e situações. Finalmente, o processo de recuperação significa “acessar” ou “ativar” uma informação, na forma de lembrança. 

Codificação e Armazenamento de curto prazo e longo prazo

De acordo com o modelo de Atkinson e Shiffrin, a formação da memória ocorre por meio de transferência de informação. A transferência da memória de curto prazo para a de longo prazo inclui um sistema de filtragem, onde um dos “critérios” parece ser a utilidade e relevância da informação. “Dos bilhões de experiências sensoriais e pensamentos que temos todos os dias, só armazenamos informações que são úteis” (GAZZANIGA; HEATHERTON, 2005, p. 223). 
Os autores referem-se ainda à capacidade de adaptação do ser humano, ligada aos processos de memória. “Ao armazenar informações significativas, os organismos podem se beneficiar da experiência.” (p. 223).
Senso assim, deve ser considerado que um dado pode ser significativo em função do contexto e da condição atual do organismo (estado fisiológico, emoções, perigo, entre outros). 
Com relação à codificação, é importante lembrar que informações já armazenadas (Memória de longo prazo) são utilizadas para codificar novas informações. A codificação relaciona-se, como vimos anteriormente, à organização das informações segundo códigos próprios da memória. Tanto na codificação quanto no armazenamento, as informações são organizadas e classificadas segundo categorias. Isto quer dizer que o armazenamento de longo prazo será constituído por redes de informações.
Estas redes são denominadas redes semânticas ou de associações, uma vez que os vínculos entre os itens são relacionados aos significados – unidade de informação. 
De acordo com a psicologia cognitiva, a estrutura de redes garante a organização lógica, que facilita tanto a codificação, quanto a recuperação, isto é, permite acesso rápido a informações armazenadas.

As pessoas utilizam suas memórias passadas e conhecimentos gerais sobre o mundo para representar a informação que chega. Ao fazer isso, elas constroem novas memórias. Elas preenchem lacunas, ignoram informações inconsistentes e interpretam o significado com base em experiências passadas. (GAZZANIGA; HEATHERTON, 2005, p. 228)

Como sabemos, o armazenamento está relacionado ao modo como a informação foi codificada. Entretanto mais alguns aspectos devem ser considerados. 
A repetição é uma estratégia bastante importante na memória de curto prazo e de trabalho, e também relaciona-se ao armazenamento de longo prazo. Destacam-se dois tipos de repetição: de manutenção (repetir a informação para si mesmo), que é limitada em termos de tempo de armazenamento; e a elaborativa. Esta última é mais complexa e ocorre por meio de associações com outras informações – significado.
Outro aspecto, estudado por Craig e Lockhart, é a profundidade do processamento. Para esses autores, quanto mais detalhado e significativo o processamento da informação, maior o tempo de armazenamento da mesma. Isto é, à medida que a informação é analisada de forma mais minuciosa e relacionada com conhecimento prévio, maior o tempo de retenção. Maior profundidade significa extrair aspectos relacionados ao significado, em comparação àqueles ligados à forma ou à aparência (GAZZANIGA; HEATHERTON, 2005).
O terceiro aspecto é o efeito do contexto. Este está relacionado à interferência que o ambiente e o contexto que nos cerca tem na codificação, armazenamento e também na recuperação.  Por exemplo, “[...] a lembrança é melhor se o contexto de recuperação for semelhante ao contexto de codificação.” (MATLIN, 2004, p. 80). Portanto, vemos que o contexto é uma pista importante para o processo de recuperação de informações. Importante lembrar que o contexto engloba aspectos do próprio indivíduo (estado físico e mental).


Recuperação 

A recuperação está relacionada ao modo de codificação e armazenamento, pois representa “encontrar” a informação codificada e armazenada. Isto foi mencionado acima, na citação de Matlin, quando o autor afirma que a recuperação é facilitada se o contexto atual é semelhante ao da codificação. 
Deve-se destacar ainda, que como as informações são armazenadas em redes, podem ser ativadas várias ao mesmo tempo. Isto quer dizer que  a informação é recuperada de acordo com as associações estabelecidas no armazenamento.
Por fim, é importante lembrar que a codificação envolve recuperação de informações armazenadas (recodificação), o que implica em melhor consolidação da memória.


3 Emoção e Modulação das memórias

De acordo com Izquierdo (2006), o fato de diferentes estados de ânimo, emoções, ansiedade e estresse estarem fortemente relacionados à memória é conhecido por todos nós. 


Um aluno estressado ou pouco alerta não forma corretamente memórias em uma sala de aula. Um aluno que é submetido a um nível alto de ansiedade, depois de uma aula, pode esquecer aquilo que aprendeu. Um aluno estressado, na hora da evocação (em uma prova, por exemplo), apresenta dificuldades para evocar (o famoso “branco”); outro que pelo contrário, estiver bem alerta, conseguirá fazê-lo muito bem. (IZQUIERDO, 2006, p. 63).


Ainda segundo este autor, há muitos anos já se conhece a relação entre estado de alerta, ansiedade e estresse e alterações químicas na atividade neuronal, que implica em maior produção de certos neurotransmissores, assim como o “efeito” desses estados em outros sistemas, como, por exemplo, o endócrino, pela produção de diferentes hormônios. Pode ocorrer tanto o aumento da aquisição de memórias, como sua inibição, isto depende do nível de produção dessas substâncias. 


As pessoas costumam lembrar melhor e em mais detalhe os episódios ou eventos carregados de emoção, como onde estavam quando mataram o presidente Kennedy, ou quando seu país ganhou uma Copa do Mundo. Porém [...], nem mesmo assim a recordação desses eventos chega a ser perfeita: nas melhores memórias sempre há um grau de extinção. (IZQUIERDO, 2006, p. 66).

Os animais e as pessoas evocam melhor uma memória ansiogênica, de aversão ou estressante quando colocados novamente em uma situação ansiogênica similar [...] 
Este fenômeno é denominado dependência de estado endógena e tem uma enorme importância adaptativa. Permite que, perante uma situação presumivelmente perigosa, como potencialmente o são todas as situações com um alto conteúdo de alerta ou ansiedade, o sujeito “traga à tona” seu acervo de memórias de circunstâncias do gênero, para assim poder ter à disposição um conjunto de respostas possíveis. (p. 67).

Sendo assim, Izquierdo (2006, p. 68, 69) destaca que a natureza da tradução das situações feita por cada um de nós ainda não é conhecida. 


Por exemplo, não sabemos por que determinado incidente nos causa determinado estado de alerta ou ansiedade. A resposta varia segundo a ocasião. Também não sabemos como e por que um estado determinado de alerta ou ansiedade ocasiona um certo nível de ativação da via dopaminérgica cerebral e outro não. Não conhecemos a natureza dos sentimentos subjacentes aos estados de ânimo ou às emoções, nem muito menos se eles vão traduzir-se em um determinado nível funcional de uma via ou de outra, nem de que maneira. Todos temos constantemente sentimentos e emoções; intuitivamente, percebemos que não é possível, nem talvez faça sentido, traduzir isso em termos precisos de atividade neuronal.


Destaca, que, mesmo conhecendo muito do que ocorre entre as vias e sistemas envolvidos na formação de memórias não foi possível prever ainda se será melhor ou pior fixada. “Participam numerosas variáveis, inclusive poderosos mecanismos moduladores no processo. Isso faz com que qualquer tentativa de redução a processos moleculares seja, em última instância, impossível.” (IZQUIERDO, 2006, p. 69). 
Alguns fatores estão associados à formação e recuperação da memória. Entre eles, destacam-se as emoções e os diferentes estados afetivos experimentados por nós cotidianamente. 
É possível afirmar que 
Tendemos a pensar mais sobre situações emocionalmente carregadas, o que implica em maior chance de armazenamento das mesmas.
A ansiedade restringe o foco de atenção, tanto em termos de codificação como de recuperação, isto é, a emoção pode direcionar o foco da atenção para conteúdos relacionados ao estado emocional, o que leva à perda de detalhes e elementos importantes das informações acessadas.

4 Distorções de lembranças e falsas memórias

Em uma citação de Gazzaniga e Heatherton (2005), feita anteriormente, os autores destacam o caráter construtivo da memória, afirmando que os seres humanos preenchem lacunas, ignoram informações, dão destaque a outras, levando em consideração, prioritariamente, informações já armazenadas. Sendo assim, podemos considerar que formamos novas memórias a partir da história já constituída; ao mesmo tempo, reformulamos nossos registros com base no que estamos vivendo.
Neste sentido, surge o que na psicologia cognitiva tem sido denominado viés da consistência. Tal fenômeno indica que tendemos a exagerar a coerência entre nosso passado e os sentimentos e crenças do presente. 
“O viés da consistência sugere que contamos nossas histórias de vida de modo que elas sejam coerentes com nossos esquemas atuais sobre nós mesmos.” (MATLIN, 2004, p. 95).
De acordo com tal afirmativa, podemos considerar que há uma “distorção” na evocação e recuperação, que levaria à “correção” de nossas lembranças em termos do que está sendo vivido no momento.
Outros aspectos relativos a falhas no processo de recuperação de informações têm sido estudados por pesquisadores da psicologia. Entre eles estão aqueles relativos às falsas memórias. Elizabeth Loftus, pioneira no estudo de falsas memórias, tem defendido a possibilidade do ser humano “produzir” lembranças de eventos não vividos. O fator mais importante na formação de falsa memória parece ser a sugestionabilidade. No entanto, não há consenso com relação à existência de falsas memórias (GAZZANIGA; HEATHERTON, 2005).
Kathy Pezdek contesta o estudo de Loftus, e afirma que os eventos lembrados são plausíveis e fazem parte de “roteiros possíveis” em nossas vidas, isto é, tratam de situações que conhecemos e que podem ocorrer a qualquer um de nós. Afirma ainda que a pesquisa cognitiva não oferece suporte para a idéia de que eventos, tais como abuso sexual, possam ser plantados na memória. (ATKINSON et al., 2002).
Já para Schacter, citado por Gazzaniga e Heatherton (2005), há possibilidade de que falsas memórias de eventos traumáticos sejam implantadas por terapeutas. Segundo o autor, alguns métodos como hipnose, regressão e recordação orientada podem levar a falsas memórias. Um dos setes pecados da memória, identificados por Shacter e já citado anteriormente, é a sugestionabilidade, ilustrado por memórias ilusórias que ocorrem quando as pessoas incorporam informações fornecidas por outros em suas próprias recordações.

Misturas de memórias


Embora tenham valor descritivo e aplicação clínica, as classificações das memórias não devem ser tomadas ao pé da letra: a maioria delas constitui-se de misturas de memórias de vários tipos e/ou misturas de memórias antigas com outras que estão sendo assim adquiridas ou evocadas no momento.
Assim, enquanto estamos evocando determinada experiência, conhecimento ou procedimento, ativa-se a memória de trabalho para verificar-se se essa memória consta ou não de nossos ‘arquivos’, evocam-se memórias de conteúdo similar ou não e misturam-se todas elas, às vezes, formando, no momento, uma nova memória.
[...]
É comum confundir o rosto, o nome ou os atos de uma pessoa com os de outra. É comum confundir aniversários próprios e alheios. Isso ocorre em todas as idades, mas as pessoas mais velhas tornam-se especialistas no assunto. Conheceram tanta gente ao longo de sua vida, que é natural que confundam ou misturem fatos ou características de umas com os de outras. [...]
A repetição da evocação das diversas misturas de memórias, somada à extinção parcial da maioria delas, pode levar-nos à elaboração de memórias falsas. (IZQUIERDO, 2006, p. 31, 32).


Em função disto, devemos considerar que nossas memórias são compostas por “reformulações”, “rearranjos”, que segundo Izquierdo (2006, p. 32) podem ser comparados a uma cidade muito velha, onde encontramos diferentes tipos de construção que se misturam e ganham um caráter particular.


É bom lembrar que a base sobre a qual formamos e evocamos memórias constantemente é constituída por “memórias e fragmentos de memórias”, mas principalmente por estes últimos. Temos mais memórias extintas ou quase-extintas no nosso cérebro do que memórias inteiras e exatas. (IZQUIERDO, 2006, p. 32). 
5 Esquecimento


Pode-se afirmar com certeza que esquecemos a imensa maioria das informações que alguma vez foram armazenadas. Já vimos que isto se aplica à totalidade das informações que passam pela memória de trabalho, mas também acontece com o resto das memórias, as que formam arquivos.
De fato conservamos só uma fração de toda informação que passa por nossa memória de trabalho; e uma fração menor ainda de tudo aquilo que eventualmente conservamos por um tempo nas nossas memórias de curta e longa duração. Nossas memórias remotas são, às vezes, intensas e, quase sempre, valiosas; porém, representam tão só uma parte de tudo aquilo que alguma vez aprendemos e lembramos.
O fenômeno do esquecimento é fisiológico e desempenha um papel adaptativo. No conto “Funes, o Memorioso”, o escritor Jorge Luis Borges refere o caso de um camponês que conseguia lembrar absolutamente tudo o que via ou ouvia. Assim, Funes era capaz de lembrar-se de todos os fatos e eventos de cada dia de sua vida, até o mínimo detalhe. Mas, claro, para fazê-lo, requeria cada vez um dia inteiro de sua vida. Assim, ficava literalmente prisioneiro de seu próprio tempo e era “incapaz de raciocinar, para o qual é preciso generalizar, para o qual é preciso esquecer”. Nossa vida social, de fato, seria impossível se nos lembrássemos de todos os detalhes de nossa interação com todas as pessoas, e de todas as impressões que tivemos de cada uma dessas interações. Não poderíamos sequer dialogar com os seres queridos se, cada vez os víssemos, viesse à nossa lembrança algum mal-estar ou briga ou humilhação, por pequenos que fossem. (IZQUIERDO, 2006, p. 30).


Em outro trecho, o autor volta a tratar do esquecimento e acrescenta:


A imensa maioria das coisas que aprendemos ao longo de todos os dias de nossa vida se extingue ou se perde. Talvez a mais importante forma de esquecimento seja a extinção: a maioria das memórias que fomos juntando se perde por falta de reforço. Mas a perda simples, seja por lesão ou por falta de uso neuronal, desempenha também um papel essencial neste processo. Lembremos aqui algo que poucos sabem: os seres humanos começam a perder neurônios na época que aprendem a caminhar, entre os nove e os 14 meses de idade. A perda é maior no segundo ano de vida e depois se desacelera. A desaparição de neurônios pode se acelerar por doenças degenerativas (alcoolismo, Alzheimer, Parkinson) e causar problemas circunscritos às áreas mais afetadas em cada uma dessas doenças [...] Na maioria das pessoas, a morte neuronal gradativa faz com que, a partir de determinada idade (80, 100 anos), as células necessárias para cada função ficam impossibilitadas. Isto acontece também com a memória. A perda de neurônios e a disfunção cerebral que delas resulta ocorrem com velocidade variável em cada indivíduo: há pessoas de 100 anos que se encontram perfeitamente lúcidas e outras de 80 que não.
O uso contínuo da memória desacelera ou reduz o déficit funcional da memória que ocorre com a idade. As funções cerebrais são o exemplo característico de que “a função faz o órgão”. No referente à memória, quanto mais se usa, menos se perde. Perde antes a memória um indivíduo que dedica a maior parte de seu tempo a dormir ou a não fazer nada, do que outro que se preocupa sempre em aprender, em manter sua mente ativa. (IZQUIERDO, 2006, p. 32).






Referências

ATKINSON, Rita et al. Introdução à psicologia de Hilgard. 13. ed. Porto Alegre: Artmed, 2002.

EYSENCK; Michael; KEANE, Mark. Manual de psicologia cognitiva. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2007.

GAZZANIGA, Michael; HEATHERTON, Todd. Ciência psicológica: mente, cérebro e comportamento. Porto Alegre: Atrmed, 2005.

IZQUIERDO, Ivan. Memória. Porto Alegre: Artmed, 2006.

MATLIN, Margaret W. Psicologia cognitiva. 5. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2004.

STERNBERG, Robert. Psicologia cognitiva. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2008.



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