sexta-feira, novembro 22, 2013

MEMÓRIA


Como veremos a seguir, o que denominamos memória inclui diferentes processos e funções cognitivas. De maneira geral, memória relaciona-se à nossa capacidade de guardar informação e utilizá-las posteriormente. Tal fato indica que o ser humano extrai informações de sua experiência imediata, isto é, adquire conhecimento e aprende, o que lhe dá mais recursos em termos de adaptação e sobrevivência.
De acordo com Izquierdo (2006, p. 9-12),

Memória é a aquisição, a formação, a conservação e a evocação de informações.
Podemos afirmar que somos aquilo que recordamos, literalmente. Não podemos fazer aquilo que não sabemos como fazer, nem comunicar nada que desconheçamos, isto é, nada que não esteja na nossa memória. Não podemos usar como base para projetar nossos futuros possíveis aquilo que esquecemos ou nunca aprendemos.
O conjunto das memórias de cada um determina aquilo que se denomina personalidade ou forma de ser. Um humano ou um animal criado no medo será mais cuidadoso, introvertido, lutador ou ressentido, dependendo mais de suas lembranças específicas do que de suas propriedades congênitas. Nem sequer as lembranças específicas dos seres clonados (como os gêmeos univitelinos) são iguais; as experiências de vida de cada um são diferentes.
Todos recordamos nossos pais, mas os pais de cada um de nós foram diferentes. Todos recordamos, em geral, vaga, mas prazerosamente, a casa onde passamos nossa primeira infância; mas a infância de uns foi mais feliz que a de outros [...]
O acervo das memórias de cada um nos converte em indivíduos.
Em seu sentido mais amplo, então, a palavra “memória” abrange desde os mecanismos que operam nas placas de meu computador, até a história de cada cidade, país, povo ou civilização, e as memórias individuais dos animais e das pessoas. Mas a palavra “memória” quer dizer algo diferente em cada caso, porque os mecanismos de sua aquisição, armazenamento e evocação são diferentes.
Não convém, portanto, entrar no terreno fácil das generalizações e considerar que nossa memória é “igual” a tal ou qual tipo de memória dos computadores. Meu computador tem chips e precisa estar ligado na tomada para funcionar; eu certamente não. Aliás, se eu colocar os dedos na tomada, sofrerei um choque e aprenderei uma memória da qual meu computador é profundamente incapaz: a de evitar colocar os dedos na tomada.
A memória humana é parecida com a dos mamíferos no que concerne a seus mecanismos essenciais e às áreas nervosas envolvidas e seu mecanismo molecular de operação; mas não no que se refere a seu conteúdo. Um ser humano lembra melodias e letras de canções ou como praticar medicina; um rato, não. Os seres humanos utilizam, a partir dos 2 ou 3 anos de idade, a linguagem para adquirir, codificar, guardar ou evocar memórias, as demais espécies animais, não.

Embora os autores indiquem a complexidade dos processos relacionados à memória e ao seu estudo, diferentes modelos teóricos e sistemas de classificação têm sido propostos. A seguir serão apresentados aspectos importantes no estudo da memória, propostos por alguns desses modelos e sistemas.


1 Diferentes sistemas de memória


A memória contém diferentes tipos de informação sobre o que se passa conosco e no contexto que nos cerca. Em outras palavras, quando falamos, por exemplo, de memória declarativa, podemos afirmar que esta não inclui apenas conteúdos diferentes daqueles da memória procedural, mas também que a primeira apresenta diferenças em relação à segunda, em termos de como são formadas e utilizadas. Os diferentes sistemas de memória também variam quanto á sua função nas diversas atividades humanas.
Um dos sistemas de memória indicado na literatura sobre o tema diz respeito à memória explícita e implícita. Para Graf e Schacter (citados por EYSENCK; KEANE, 2007, p. 228), a memória explícita “[...] manifesta-se quando o desempenho em uma tarefa requer uma recordação consistente de experiências anteriores.”. 
Já a expressão da memória implícita é facilitada na ausência de recordação consciente. A memória implícita está relacionada a habilidades e indica aperfeiçoamento no desempenho de tarefas, isto é, ocorre aquisição da informação sem que haja recordação (recuperação) das experiências que levaram a esta aquisição ou aperfeiçoamento. (ATKINSON et al., 2002).
As memórias declarativas são geralmente relacionadas à memória explícita, uma vez que são “[...] memórias que registram fatos, eventos ou conhecimento [...] porque nós, os seres humanos [...] podemos relatar como as adquirimos.”. (IZQUIERDO, 2006, p. 22).
Por outro lado, ainda de acordo com este autor, a memória procedural ou “As memórias de procedimentos são em geral adquiridas de maneira implícita, mais ou menos automática e sem que o sujeito perceba de forma clara que as está aprendendo [...]”.  (IZQUIERDO, 2006, p. 23).
Essa delimitação de diferentes sistemas, como apontado no primeiro parágrafo, indica, especialmente, uma “qualificação” do conteúdo armazenado. Entretanto, deve-se destacar que muitos estudiosos não consideram que esses sistemas sejam independentes um do outro. Tal afirmativa reforça a idéia da memória cumprir distintas e importantes funções de forma integrada, além de sua relação com outros processos psicológicos básicos, como a percepção, a linguagem e o pensamento.

Memória episódica e memória semântica

Embora não haja consenso em relação a uma clara distinção entre esses dois tipos de memória, para Tulving (citado por EYSENCK; KEANE, 2007, p. 231), primeiro a defender essa distinção, 

[...] a memória episódica refere-se ao armazenamento (e à recuperação) de eventos ou episódios específicos que ocorrem em um determinado lugar em um determinado momento. Por isso, lembrar o que você comeu hoje no café da manhã é um exemplo de memória episódica. Em contraste, a memória semântica contém informações sobre a nossa bagagem de conhecimento sobre o mundo. (TULVING citado por EYSENCK; KEANE, 2007, p. 231).



Segundo Eysenck e Keane (2007, p. 231), Tulving refere-se à memória semântica como um “dicionário mental”, uma vez que contém conhecimento sobre palavras e outros símbolos verbais, assim como significados, a relação entre eles, e regras de uso dos mesmos. 

Memória episódica e memória autobiográfica

Mesmo que muitos autores usem a expressão memória autobiográfica como sinônima de memória episódica, para Eysenck e Keane (2007), existem diferenças importantes. Para os autores, mesmo que pareçam similares, por serem relacionadas às experiências pessoais do passado,


Grande parte das informações na memória episódica é de certo modo trivial e lembrada apenas durante um curto período de tempo. Em contraste, a memória autobiográfica armazena informações para longos períodos de tempo sobre eventos e experiências de alguma importância para o indivíduo em questão. (EYSENCK; KEANE, 2007, p. 231).


Memória procedural

Segundo Eysenck e Keane (2007), a descrição sistemática desse tipo de memória ocorreu em 1980 e foi realizada por Cohen e Squire. Schacter e cols., citados por Eysenck e Keane (2007, p. 237), indicam que a memória procedural 


[...]‘refere-se à aprendizagem de habilidades motoras e cognitivas e manifesta- se em uma ampla série de situações. A aprendizagem de andar de bicicleta e a aquisição de habilidades de leitura são exemplos de memória procedural.’ O termo ‘aprendizagem de habilidades’ costuma ser usado para indicar o que Schacter e outros definiram como memória procedural e é demonstrado pela aprendizagem que se generaliza para uma série de outros estímulos além daqueles usados durante o treinamento.



2 Processos de memória


O processamento da memória, segundo a psicologia cognitiva, engloba  codificação, armazenamento e recuperação. De acordo com Sternberg (2008, p 190), 

A codificação refere-se a como você transforma um dado físico, sensorial, recebido em um tipo de representação que pode ser colocado na memória. A armazenagem diz respeito a como você retém a informação codificada na memória. A recuperação é a forma como você acessa a informação armazenada na memória.


Em outras palavras, podemos dizer que a codificação é a tradução da informação, por meio de códigos específicos, para que possa ser armazenada, isto é, mantida por maior ou menor tempo à disposição para ser recuperada em diferentes contextos e situações. Finalmente, o processo de recuperação significa “acessar” ou “ativar” uma informação, na forma de lembrança. 

Codificação e Armazenamento de curto prazo e longo prazo

De acordo com o modelo de Atkinson e Shiffrin, a formação da memória ocorre por meio de transferência de informação. A transferência da memória de curto prazo para a de longo prazo inclui um sistema de filtragem, onde um dos “critérios” parece ser a utilidade e relevância da informação. “Dos bilhões de experiências sensoriais e pensamentos que temos todos os dias, só armazenamos informações que são úteis” (GAZZANIGA; HEATHERTON, 2005, p. 223). 
Os autores referem-se ainda à capacidade de adaptação do ser humano, ligada aos processos de memória. “Ao armazenar informações significativas, os organismos podem se beneficiar da experiência.” (p. 223).
Senso assim, deve ser considerado que um dado pode ser significativo em função do contexto e da condição atual do organismo (estado fisiológico, emoções, perigo, entre outros). 
Com relação à codificação, é importante lembrar que informações já armazenadas (Memória de longo prazo) são utilizadas para codificar novas informações. A codificação relaciona-se, como vimos anteriormente, à organização das informações segundo códigos próprios da memória. Tanto na codificação quanto no armazenamento, as informações são organizadas e classificadas segundo categorias. Isto quer dizer que o armazenamento de longo prazo será constituído por redes de informações.
Estas redes são denominadas redes semânticas ou de associações, uma vez que os vínculos entre os itens são relacionados aos significados – unidade de informação. 
De acordo com a psicologia cognitiva, a estrutura de redes garante a organização lógica, que facilita tanto a codificação, quanto a recuperação, isto é, permite acesso rápido a informações armazenadas.

As pessoas utilizam suas memórias passadas e conhecimentos gerais sobre o mundo para representar a informação que chega. Ao fazer isso, elas constroem novas memórias. Elas preenchem lacunas, ignoram informações inconsistentes e interpretam o significado com base em experiências passadas. (GAZZANIGA; HEATHERTON, 2005, p. 228)

Como sabemos, o armazenamento está relacionado ao modo como a informação foi codificada. Entretanto mais alguns aspectos devem ser considerados. 
A repetição é uma estratégia bastante importante na memória de curto prazo e de trabalho, e também relaciona-se ao armazenamento de longo prazo. Destacam-se dois tipos de repetição: de manutenção (repetir a informação para si mesmo), que é limitada em termos de tempo de armazenamento; e a elaborativa. Esta última é mais complexa e ocorre por meio de associações com outras informações – significado.
Outro aspecto, estudado por Craig e Lockhart, é a profundidade do processamento. Para esses autores, quanto mais detalhado e significativo o processamento da informação, maior o tempo de armazenamento da mesma. Isto é, à medida que a informação é analisada de forma mais minuciosa e relacionada com conhecimento prévio, maior o tempo de retenção. Maior profundidade significa extrair aspectos relacionados ao significado, em comparação àqueles ligados à forma ou à aparência (GAZZANIGA; HEATHERTON, 2005).
O terceiro aspecto é o efeito do contexto. Este está relacionado à interferência que o ambiente e o contexto que nos cerca tem na codificação, armazenamento e também na recuperação.  Por exemplo, “[...] a lembrança é melhor se o contexto de recuperação for semelhante ao contexto de codificação.” (MATLIN, 2004, p. 80). Portanto, vemos que o contexto é uma pista importante para o processo de recuperação de informações. Importante lembrar que o contexto engloba aspectos do próprio indivíduo (estado físico e mental).


Recuperação 

A recuperação está relacionada ao modo de codificação e armazenamento, pois representa “encontrar” a informação codificada e armazenada. Isto foi mencionado acima, na citação de Matlin, quando o autor afirma que a recuperação é facilitada se o contexto atual é semelhante ao da codificação. 
Deve-se destacar ainda, que como as informações são armazenadas em redes, podem ser ativadas várias ao mesmo tempo. Isto quer dizer que  a informação é recuperada de acordo com as associações estabelecidas no armazenamento.
Por fim, é importante lembrar que a codificação envolve recuperação de informações armazenadas (recodificação), o que implica em melhor consolidação da memória.


3 Emoção e Modulação das memórias

De acordo com Izquierdo (2006), o fato de diferentes estados de ânimo, emoções, ansiedade e estresse estarem fortemente relacionados à memória é conhecido por todos nós. 


Um aluno estressado ou pouco alerta não forma corretamente memórias em uma sala de aula. Um aluno que é submetido a um nível alto de ansiedade, depois de uma aula, pode esquecer aquilo que aprendeu. Um aluno estressado, na hora da evocação (em uma prova, por exemplo), apresenta dificuldades para evocar (o famoso “branco”); outro que pelo contrário, estiver bem alerta, conseguirá fazê-lo muito bem. (IZQUIERDO, 2006, p. 63).


Ainda segundo este autor, há muitos anos já se conhece a relação entre estado de alerta, ansiedade e estresse e alterações químicas na atividade neuronal, que implica em maior produção de certos neurotransmissores, assim como o “efeito” desses estados em outros sistemas, como, por exemplo, o endócrino, pela produção de diferentes hormônios. Pode ocorrer tanto o aumento da aquisição de memórias, como sua inibição, isto depende do nível de produção dessas substâncias. 


As pessoas costumam lembrar melhor e em mais detalhe os episódios ou eventos carregados de emoção, como onde estavam quando mataram o presidente Kennedy, ou quando seu país ganhou uma Copa do Mundo. Porém [...], nem mesmo assim a recordação desses eventos chega a ser perfeita: nas melhores memórias sempre há um grau de extinção. (IZQUIERDO, 2006, p. 66).

Os animais e as pessoas evocam melhor uma memória ansiogênica, de aversão ou estressante quando colocados novamente em uma situação ansiogênica similar [...] 
Este fenômeno é denominado dependência de estado endógena e tem uma enorme importância adaptativa. Permite que, perante uma situação presumivelmente perigosa, como potencialmente o são todas as situações com um alto conteúdo de alerta ou ansiedade, o sujeito “traga à tona” seu acervo de memórias de circunstâncias do gênero, para assim poder ter à disposição um conjunto de respostas possíveis. (p. 67).

Sendo assim, Izquierdo (2006, p. 68, 69) destaca que a natureza da tradução das situações feita por cada um de nós ainda não é conhecida. 


Por exemplo, não sabemos por que determinado incidente nos causa determinado estado de alerta ou ansiedade. A resposta varia segundo a ocasião. Também não sabemos como e por que um estado determinado de alerta ou ansiedade ocasiona um certo nível de ativação da via dopaminérgica cerebral e outro não. Não conhecemos a natureza dos sentimentos subjacentes aos estados de ânimo ou às emoções, nem muito menos se eles vão traduzir-se em um determinado nível funcional de uma via ou de outra, nem de que maneira. Todos temos constantemente sentimentos e emoções; intuitivamente, percebemos que não é possível, nem talvez faça sentido, traduzir isso em termos precisos de atividade neuronal.


Destaca, que, mesmo conhecendo muito do que ocorre entre as vias e sistemas envolvidos na formação de memórias não foi possível prever ainda se será melhor ou pior fixada. “Participam numerosas variáveis, inclusive poderosos mecanismos moduladores no processo. Isso faz com que qualquer tentativa de redução a processos moleculares seja, em última instância, impossível.” (IZQUIERDO, 2006, p. 69). 
Alguns fatores estão associados à formação e recuperação da memória. Entre eles, destacam-se as emoções e os diferentes estados afetivos experimentados por nós cotidianamente. 
É possível afirmar que 
Tendemos a pensar mais sobre situações emocionalmente carregadas, o que implica em maior chance de armazenamento das mesmas.
A ansiedade restringe o foco de atenção, tanto em termos de codificação como de recuperação, isto é, a emoção pode direcionar o foco da atenção para conteúdos relacionados ao estado emocional, o que leva à perda de detalhes e elementos importantes das informações acessadas.

4 Distorções de lembranças e falsas memórias

Em uma citação de Gazzaniga e Heatherton (2005), feita anteriormente, os autores destacam o caráter construtivo da memória, afirmando que os seres humanos preenchem lacunas, ignoram informações, dão destaque a outras, levando em consideração, prioritariamente, informações já armazenadas. Sendo assim, podemos considerar que formamos novas memórias a partir da história já constituída; ao mesmo tempo, reformulamos nossos registros com base no que estamos vivendo.
Neste sentido, surge o que na psicologia cognitiva tem sido denominado viés da consistência. Tal fenômeno indica que tendemos a exagerar a coerência entre nosso passado e os sentimentos e crenças do presente. 
“O viés da consistência sugere que contamos nossas histórias de vida de modo que elas sejam coerentes com nossos esquemas atuais sobre nós mesmos.” (MATLIN, 2004, p. 95).
De acordo com tal afirmativa, podemos considerar que há uma “distorção” na evocação e recuperação, que levaria à “correção” de nossas lembranças em termos do que está sendo vivido no momento.
Outros aspectos relativos a falhas no processo de recuperação de informações têm sido estudados por pesquisadores da psicologia. Entre eles estão aqueles relativos às falsas memórias. Elizabeth Loftus, pioneira no estudo de falsas memórias, tem defendido a possibilidade do ser humano “produzir” lembranças de eventos não vividos. O fator mais importante na formação de falsa memória parece ser a sugestionabilidade. No entanto, não há consenso com relação à existência de falsas memórias (GAZZANIGA; HEATHERTON, 2005).
Kathy Pezdek contesta o estudo de Loftus, e afirma que os eventos lembrados são plausíveis e fazem parte de “roteiros possíveis” em nossas vidas, isto é, tratam de situações que conhecemos e que podem ocorrer a qualquer um de nós. Afirma ainda que a pesquisa cognitiva não oferece suporte para a idéia de que eventos, tais como abuso sexual, possam ser plantados na memória. (ATKINSON et al., 2002).
Já para Schacter, citado por Gazzaniga e Heatherton (2005), há possibilidade de que falsas memórias de eventos traumáticos sejam implantadas por terapeutas. Segundo o autor, alguns métodos como hipnose, regressão e recordação orientada podem levar a falsas memórias. Um dos setes pecados da memória, identificados por Shacter e já citado anteriormente, é a sugestionabilidade, ilustrado por memórias ilusórias que ocorrem quando as pessoas incorporam informações fornecidas por outros em suas próprias recordações.

Misturas de memórias


Embora tenham valor descritivo e aplicação clínica, as classificações das memórias não devem ser tomadas ao pé da letra: a maioria delas constitui-se de misturas de memórias de vários tipos e/ou misturas de memórias antigas com outras que estão sendo assim adquiridas ou evocadas no momento.
Assim, enquanto estamos evocando determinada experiência, conhecimento ou procedimento, ativa-se a memória de trabalho para verificar-se se essa memória consta ou não de nossos ‘arquivos’, evocam-se memórias de conteúdo similar ou não e misturam-se todas elas, às vezes, formando, no momento, uma nova memória.
[...]
É comum confundir o rosto, o nome ou os atos de uma pessoa com os de outra. É comum confundir aniversários próprios e alheios. Isso ocorre em todas as idades, mas as pessoas mais velhas tornam-se especialistas no assunto. Conheceram tanta gente ao longo de sua vida, que é natural que confundam ou misturem fatos ou características de umas com os de outras. [...]
A repetição da evocação das diversas misturas de memórias, somada à extinção parcial da maioria delas, pode levar-nos à elaboração de memórias falsas. (IZQUIERDO, 2006, p. 31, 32).


Em função disto, devemos considerar que nossas memórias são compostas por “reformulações”, “rearranjos”, que segundo Izquierdo (2006, p. 32) podem ser comparados a uma cidade muito velha, onde encontramos diferentes tipos de construção que se misturam e ganham um caráter particular.


É bom lembrar que a base sobre a qual formamos e evocamos memórias constantemente é constituída por “memórias e fragmentos de memórias”, mas principalmente por estes últimos. Temos mais memórias extintas ou quase-extintas no nosso cérebro do que memórias inteiras e exatas. (IZQUIERDO, 2006, p. 32). 
5 Esquecimento


Pode-se afirmar com certeza que esquecemos a imensa maioria das informações que alguma vez foram armazenadas. Já vimos que isto se aplica à totalidade das informações que passam pela memória de trabalho, mas também acontece com o resto das memórias, as que formam arquivos.
De fato conservamos só uma fração de toda informação que passa por nossa memória de trabalho; e uma fração menor ainda de tudo aquilo que eventualmente conservamos por um tempo nas nossas memórias de curta e longa duração. Nossas memórias remotas são, às vezes, intensas e, quase sempre, valiosas; porém, representam tão só uma parte de tudo aquilo que alguma vez aprendemos e lembramos.
O fenômeno do esquecimento é fisiológico e desempenha um papel adaptativo. No conto “Funes, o Memorioso”, o escritor Jorge Luis Borges refere o caso de um camponês que conseguia lembrar absolutamente tudo o que via ou ouvia. Assim, Funes era capaz de lembrar-se de todos os fatos e eventos de cada dia de sua vida, até o mínimo detalhe. Mas, claro, para fazê-lo, requeria cada vez um dia inteiro de sua vida. Assim, ficava literalmente prisioneiro de seu próprio tempo e era “incapaz de raciocinar, para o qual é preciso generalizar, para o qual é preciso esquecer”. Nossa vida social, de fato, seria impossível se nos lembrássemos de todos os detalhes de nossa interação com todas as pessoas, e de todas as impressões que tivemos de cada uma dessas interações. Não poderíamos sequer dialogar com os seres queridos se, cada vez os víssemos, viesse à nossa lembrança algum mal-estar ou briga ou humilhação, por pequenos que fossem. (IZQUIERDO, 2006, p. 30).


Em outro trecho, o autor volta a tratar do esquecimento e acrescenta:


A imensa maioria das coisas que aprendemos ao longo de todos os dias de nossa vida se extingue ou se perde. Talvez a mais importante forma de esquecimento seja a extinção: a maioria das memórias que fomos juntando se perde por falta de reforço. Mas a perda simples, seja por lesão ou por falta de uso neuronal, desempenha também um papel essencial neste processo. Lembremos aqui algo que poucos sabem: os seres humanos começam a perder neurônios na época que aprendem a caminhar, entre os nove e os 14 meses de idade. A perda é maior no segundo ano de vida e depois se desacelera. A desaparição de neurônios pode se acelerar por doenças degenerativas (alcoolismo, Alzheimer, Parkinson) e causar problemas circunscritos às áreas mais afetadas em cada uma dessas doenças [...] Na maioria das pessoas, a morte neuronal gradativa faz com que, a partir de determinada idade (80, 100 anos), as células necessárias para cada função ficam impossibilitadas. Isto acontece também com a memória. A perda de neurônios e a disfunção cerebral que delas resulta ocorrem com velocidade variável em cada indivíduo: há pessoas de 100 anos que se encontram perfeitamente lúcidas e outras de 80 que não.
O uso contínuo da memória desacelera ou reduz o déficit funcional da memória que ocorre com a idade. As funções cerebrais são o exemplo característico de que “a função faz o órgão”. No referente à memória, quanto mais se usa, menos se perde. Perde antes a memória um indivíduo que dedica a maior parte de seu tempo a dormir ou a não fazer nada, do que outro que se preocupa sempre em aprender, em manter sua mente ativa. (IZQUIERDO, 2006, p. 32).






Referências

ATKINSON, Rita et al. Introdução à psicologia de Hilgard. 13. ed. Porto Alegre: Artmed, 2002.

EYSENCK; Michael; KEANE, Mark. Manual de psicologia cognitiva. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2007.

GAZZANIGA, Michael; HEATHERTON, Todd. Ciência psicológica: mente, cérebro e comportamento. Porto Alegre: Atrmed, 2005.

IZQUIERDO, Ivan. Memória. Porto Alegre: Artmed, 2006.

MATLIN, Margaret W. Psicologia cognitiva. 5. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2004.

STERNBERG, Robert. Psicologia cognitiva. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2008.



Conceituação de Ética

Ethos: morada

Ética: Ciência da Conduta

Ética ou Filosofia moral é a parte da Filosofia que se ocupa com a reflexão a respeito dos fundamentos da vida moral.

Moral: Conjunto de regras que determinam o comportamento dos indivíduos numa sociedade.
Exterior a anterior ao indivíduo há uma moral constituída, que orienta o seu comportamento por meio de normas. Em função da adequação ou não à norma estabelecida, o ato será considerado moral ou imoral.
É de tal importância a existência do mundo moral, que se torna impossível imaginar um povo sem qualquer conjunto de regras.
Uma das características fundamentais do homem é produzir interdições. A passagem da natureza para a cultura é produzida pela instauração da lei. Portanto, a Ética é criação histórico-cultural (conjunto de costumes tradicionais de uma sociedade). A maneira como os humanos interpretam-se a si mesmos e a relação com a natureza.

Senso Moral: possibilidade de ajuizar sobre uma determinada questão, é que nos faz ter um sentimento e atitude voltada para o bem comum e pessoal (não individualismo).
Consciência Moral: implica em alguma decisão a tomar assumindo todas as conseqüências de tal decisão, porque devemos ser responsáveis por nossas decisões.
Juízos de Valor: avaliação sobre coisas, pessoas, situações e são proferidos na moral, nas artes, na política, na religião, etc. Valoração do que é bom ou mau, desejável e indesejável.
São Juízos que enunciam obrigações, e avaliam intenções e ações, segundo o critério do correto e incorreto.
      
Sócrates inaugura a Ética, porque define o campo no qual valores e obrigações morais podem ser estabelecidos.
Sujeito ético: responde por suas ações
Toda moral está situada no tempo e reflete um mundo em que a nossa liberdade se acha situada.
A historicidade do homem não reside na sua mera continuidade no tempo, mas é a consciência ativa do futuro, pela qual se torna possível a criação original por meio de um projeto de ação. A instauração de um mundo moral exige do homem uma consciência crítica.

2 - As Questões da Ação Moral


Aristóteles fez a distinção entre saber teorético e saber prático.

Saber Teorético: conhecimento da natureza ou de qualquer fenômeno sem interferência humana.
Saber Prático: Conhecimento daquilo que só existe como conseqüência da ação humana.

A Ética refere-se a práxis. Na práxis, o agente, a ação, e a finalidade do agir são inseparáveis.
As ações éticas não só são definidas pelas virtudes, pelo bem e pela obrigação, mas também porque pertencem a esfera da deliberação, decisão ou escolha. 
Deliberamos e decidimos sobre o possível, isto é, sobre aquilo que pode ser ou deixar de ser, porque depende de nós, de nossa vontade e, portanto de nossa ação.
A ação moral do sujeito ético não se submete aos acasos da sorte, à vontade e aos desejos de um outro, à tirania das paixões, mas obedece apenas a sua consciência que conhece o bem e as virtudes (força interior do caráter) e a sua vontade racional, que conhece os meios adequados para chegar aos fins morais. A busca do bem e da felicidade são a essência da vida ética.

3 - As Questões da Responsabilidade Moral

Ato Responsável: um ato moral responsável deve ser livre, consciente, intencional, mas é preciso que não seja solitário. Decorre ai a exigência da responsabilidade. Responsável é aquele que responde pelos seus atos, assume a autoria de seus atos.

O aumento do grau de consciência e de liberdade implica numa maior responsabilidade pessoal no que se refere ao comportamento moral.
Ser responsável, isto é, reconhecer-se como autor da ação, avaliar os efeitos e conseqüências dela sobre si e sobre si e sobre os outros, assumindo bem como às suas conseqüências, respondendo por elas.
A complexidade do ato moral reside no fato de que ele provoca efeitos não só na pessoa, mas naqueles que a cercam e na própria sociedade como um todo.
O homem “com-vive” com as pessoas. O homem é ao mesmo tempo herdeiro e criador da cultura, e só terá uma vida autêntica se diante da moral constituída, for capaz de propor uma moral constituinte, isto é, a que se faz dolorosamente, e por meio das experiências vividas.
Toda moral está situada num tempo e reflete um mundo em que a nossa liberdade se acha situada. Diante do passado que condiciona nossos atos, podemos nos colocar à distância para reassumí-lo ou recusá-lo. A historicidade do homem não reside na sua mera continuidade no tempo, mas é a consciência ativa do futuro, pela qual se torna possível a criação original por meio de um projeto de algo que tudo muda.

4-  As Questões do Dever Moral

A razão prática é a liberdade como instauração de normas e fins éticos. Se a razão prática tem o poder de criar normas e fins morais, tem também o poder para impô-los a si mesma.Essa imposição que a razão prática faz a si mesma daquilo que era própria criou é o dever.
Este, portanto, longe de ser uma imposição externa feita a nossa vontade e nossa consciência, é a expressão da lei moral em nós, obedecê-lo é obedecer a si mesmo.
Por dever, damos a nós mesmos os valores, os fins e as leis da nossa ação moral, e por isso somos autônomos.(Kant)
A vida ética é o acordo e a harmonia entre a vontade subjetiva individual e a vontade objetiva cultural. O dever, portanto, é o acordo pleno entre nossa vontade subjetiva individual e a totalidade ética ou moralidade.  (Hegel)
A natureza da obrigatoriedade moral não reside na exterioridade, é moral justamente porque deriva do próprio sujeito que se impõe o cumprimento da norma. Parece paradoxal, mas a obediência à lei livremente escolhida não é prisão, ao contrário é liberdade.

Noções de Heteronomia e Autonomia

Heteronomia: hetero diferente – nomos – lei: significa a aceitação da norma que não é nossa, que vem de fora, quando nos submetemos aos valores da tradição e obedecemos passivamente aos costumes por compromisso ou por temos à reprovação da sociedade.
              Autonomia: auto     próprio – não nega a influência externa, os condicionamentos e os determinismos, mas recoloca no homem a capacidade de refletir sobre as limitações que lhes são impostas, a partir das quais orienta a sua ação.
Portanto, quando decide pelo dever de cumprir uma norma, o centro da decisão é ele mesmo, a sua própria consciência moral – Autonomia é autodeterminação.

Liberdade:
A liberdade é a capacidade para darmos um sentido novo ao que parecia fatalidade, transformando a situação de fato numa realidade nova, criada por nossa ação. Essa força transformadora, que torna real o que era apenas passível, é o que faz surgir uma obra de arte, uma obra de pensamento, uma ação heróica, um movimento anti-racista, uma luta contra a discriminação sexual ou de classe social, uma resistência à tirania e a história contra ela.
O possível não é pura contingência ou acaso. O necessário não é fatalidade bruta.O passível é o que se encontra aberto no coração do necessário, e que nossa liberdade agarra para fazer-se liberdade. Nosso desejo e nossa vontade não são incondicionados, mas os condicionamentos não são obstáculos à liberdade, e sim o meio pelo qual ela pode exercer-se.
A liberdade, porém, não se encontra na ilusão do “posso tudo”, nem no conformismo do “nada posso”. Encontra-se na disposição para interpretar e decifrar os vetores do campo presente como possibilidades objetivas, isto é, como abertura de novas direções e de novos sentidos a partir do que está dado.


 Ética e Racionalidade Moderna

 Ética e Ciência

Qual a função e o sentido da Ciência na vida do homem dentro do contexto sócio-histórico?
Há um profundo questionamento sobre seus fundamentos e seus fins, que emerge a partir do confronto entre o desenvolvimento acelerado e as condições universais de vida da maioria da população (particularmente brasileira).
A Ciência está intimamente ligada ao “destino” da vida humana nesta sociedade, o próprio ser do homem, começa a depender dela em sua efetivação.
Portanto, onde o ser do homem está em jogo se configura uma problemática ética, a problemática de uma “fundamentação racional” da ação humana.
O homem é um conquista de si mesmo à medida que constrói seus mundos históricos, sua ação no mundo (critérios de responsabilidade).
Na concepção vigente em nossa sociedade surge o apelo de uma “nova moral” unicamente fundamentada na racionalidade crítica do homem, que aparece irrealizável, pois a Teoria das Ciências difundiu como conquista da civilização tecnológica a concepção da racionalidade instrumental: todo saber humano responsável reduz-se ao conhecimento formal lógico-matemático. Só aí existe objetividade legitimação racional dos conhecimentos.
Mas esse processo de racionalização só se estende a verdade que pretende exprimir as relações do homem com o mundo objetivo, o mundo dos fatos.
No que se diz respeito às normas de ação socialmente transmitidas, é impossível superar o nível da “eticidade” de sua vigência histórica nas comunidades humanas. Aceitação ou não da faticidade normativa depende de uma “pura” decisão subjetiva. Daí, o paradoxo: uma humanidade que pretende ter atingido a suprema forma de racionalidade no conhecimento dos fatos deve conformar-se as decisões irracionais no que diz respeito a sua práxis moral.



 Tecnologia e Intersubjetividade

Técnica e tecnologia são palavras que exprimem a forma de consciência do homem de nosso tempo.
Como pensamento de importância universal na vida humana, a técnica apresenta-se como objetivo primordial da reflexão filosófica hoje. A intersubjetividade encontra-se em pauta, a técnica encontra seu sentido como mediadora de humanização.

A técnica como modo específico de relacionamento do homem moderno com a realidade -> o homem não é simplesmente um ente entre os outros, mas em que o sentido de ser emerge na infinita concretude de seu “dizer-é”. A determinação do conteúdo do ser se faz através das perguntas do homem, da subjetividade.

A tarefa que emerge é explicitar o que é “realidade” e o que é “verdade” para o homem de hoje. Afirma-se que a forma específica de consciência contemporânea é o tecnologismo, e com isso não pretende-se simplesmente dizer que o mundo ambiente do homem moderno tem como um de seus constituintes fundamentais instrumentos técnicos, ou seja, juntos da técnica, mas antes que a forma do próprio relacionamento do homem com a realidade é tecnológica.
O perigo é a Tendência absolutizante da técnica, que a impede de ver seus limites estruturais de considerar-se como momento de um processo global de humanização.
Justamente num mundo em que a Ciência e a técnica tornam-se elementos dominantes e universais, a reflexão filosófica surge como a realização do espírito enquanto “teoria” que deve levar técnica e Ciência a uma auto-reflexão: é em função mesmo da humanização do homem que surge a necessidade impreterível de uma reflexão radical sobre o sentido último que deve possibilitar a realização da comunidade humana.

A Ética das Ideologias

A ideologia emerge como dimensão constitutiva e fundamental da vida humana enquanto vida sócio-histórica. A ideologia assim entendida possibilita ao homem criar uma existência humana com os outros no mundo. O homem é um ser ideológico, já que ele constitui ideologia; mas ela o constitui como homem, no jogo relações que o fazem homem. O homem é por natureza, um ser simbólico e por isso um ser ideológico.
A ideologia e história são mutuamente inclusivas, pois não é possível pensar a práxis histórica sem a dimensão ideológica. No entanto, a práxis comunicativa é essencialmente aberta à racionalidade crítica e, portanto, à crítica às ideologias (ideologias das classes dominantes).
A humanidade mais solitária é a materialização histórica da forma ideal de vida, a aspiração objetiva dos oprimidos.
Uma ideologia é eticamente aceitável se capaz de conter em si os interesses fundamentais da humanidade, mediados pelos interesses dos oprimidos. O oprimido emerge, assim, como o “Tribunal da razão”, a instância afetiva de prova de novas concepções de mundo.

Perfil do profissional do século XXI

A competência profissional é reflexo da soma de várias características físicas e emocionais, que quando harmonizadas levam ao sucesso profissional.

Determinação:
Definir objetivos a partir da reflexão, da percepção e da observação dos fatos. Portanto, estabelecer metas para alcança-las. 

Motivação:
Motor que nos impulsiona para a realização pessoal e profissional, como fatores psicológicos, conscientes ou não, de ordem fisiológica, afetiva ou intelectual.
Cuidar da qualidade do que pensamos, orientar as idéias para coisa positiva e desafiadoras é fundamental para que se tenha motivação para realizar coisas diferentes.

Preparo:
-Aprender a conhecer – buscar conhecimento, estudar, aumentar o número de informações sobre as coisas;
-Aprender a fazer – habilidade em realizar, a partir dos conhecimentos adquiridos. Unir teoria e prática;
-Aprender a conviver – este item é fundamental para os seres humanos, já que sua vantagem competitiva é a linguagem e aprender a conviver em grupo aprimora a nossa linguagem;
-Aprender a ser – aqui entram itens como integridade, honestidade e bom caráter.


Cuidados:
Um dos fatores mais importantes da competência é a boa saúde. Infelizmente, apesar de muitos não perceberem, a maior parte das pessoas está no estágio intermediário entre a saúde e doença. Nesse nível, elas não apresentam uma doença definida, mas apresentam sintomas físicos ou psicológicos de que algo não está bem. Isso acontece porque um ou mais fatores pró-saúde estão sendo “maltratados”. Veja quais são eles:
Alimentação
Exercício 
Sono 
Stress 
Autoestima 
Objetivos 
Crenças

Autoconfiança:
Para termos auto-confiança, precisamos de auto-conhecimento. Isso porque só confiamos em quem conhecemos, e assim só podemos confiar em nós mesmos se nos conhecermos a ponto de saber nossa capacidade, nossos limites, e se podemos cumprir aquilo com que estamos comprometidos.

Aptidão:
Aptidão, pode ser a disposição inata para praticar algo ou a capacidade de desenvolver a habilidade necessária para realizar uma atividade. Assim, tanto o dom como o talento adquirido a partir do treinamento podem levar você a ser ótimo naquilo que faz.

Competência:
Para explicar o fator “competência”, temos a seguinte fórmula:
C= S x P x Q, que diz que  Competência é igual ao saber, multiplicado pelo poder e pelo querer.
Portanto, competente é quem obtém resultados no menor tempo e com a menor quantidade de recursos possível. Competente também é quem multiplica conhecimento pela habilidade de realizar e pela atitude, que é o “querer” algo.
Vale ressaltar que a competência do profissional deve estar de acordo com a plataforma – necessidades, cultura, clima – da corporação, para que as partes se entendam. Muitas vezes, o profissional é extremamente competente, mas não para aquela determinada empresa.

Comunicação:
Você quer se dar bem como profissional? Então aprenda a se comunicar!
Como vivemos em grupo, sem uma boa comunicação, sem fazer com que os outros nos entendam, não chegamos a lugar algum. Além disso, a linguagem estimula o pensamento (e vice-versa), portanto é preciso praticar.

Emoção:
Por fim, a emoção aparece como  o último fator responsável pelo perfil do profissional competente. O que precisamos saber sobre ela é:
Quem vem do cérebro, e não do coração. O sistema límbico é a parte do cérebro responsável pelas emoções e pelos sentimentos;
É mais fácil para o ser humano ter emoções do que pensamento, já que o sistema límbico é muito mais antigo do que o córtex – área responsável pela razão;
As nossas decisões, profissionais ou pessoais, devem ser racionais, porque o sistema límbico só busca o prazer. A razão sobe o momento em que a emoção deve atuar, mas o contrário não acontece.

O que é Epicurismo

Epicurismo é um sistema filosófico, que prega a procura dos prazeres moderados para atingir um estado de tranquilidade e de libertação do medo, com a ausência de sofrimento corporal pelo conhecimento do funcionamento do mundo e da limitação dos desejos. Já quando os desejos são exacerbados podem ser fonte de perturbações constantes, dificultando o encontro da felicidade que é manter a saúde do corpo e a serenidade do espírito.

Epicurismo é um sistema da filosofia criado por um filósofo ateniense chamado Epicuro de Samos no século IV a.C. Existem vários fundamentos básicos do Epicurismo, porém, se distingue o desejo para encontrar a felicidade, buscar a saúde da alma, lembrando que o sentido da vida é o prazer, objetivo imediato de cada ação humana considerando sem sentido as angústias em relação à morte, e a preocupação com o destino.
No Epicurismo o prazer deve ser sereno e calmo. Os seguidores do Epicurismo são chamados de epicuristas, e seu seguidor deve procurar evitar a dor e as perturbações, levar uma vida longe das multidões, porém não solitário, dos luxos excessivos, se colocando em harmonia com a natureza e desfrutando da paz. Outro valor defendido pelo Epicurismo e seus defensores é a amizade. A amizade traz uma grande felicidade para as pessoas já que a convivência ocasiona uma troca sempre saudável de pensamentos e opiniões enriquecendo as relações.
Um Epicurista não busca a fama das celebridades, nem o poder, busca sim os prazeres dos sentidos conforme as prioridades de cada indivíduo, por exemplo, comidas especiais se o prazer de comer é indispensável, tirar um sono no horário da tarde pelo simples prazer de dormir etc. Se os prazeres forem gozados junto dos amigos se tornará mais importante.
Segundo Epicuro, o criador do Epicurismo, as pessoas não podem viver de forma agradável se não forem prudentes, gentis com os outros e justas em suas atitudes e pensamentos sem viver prazerosamente. As virtudes então devem ser praticadas como garantia dos prazeres.

Fase

quinta-feira, novembro 14, 2013

O diamante

Dentre todas as pedras preciosas, o diamante sem dúvida é o "Rei". Um diamante polido, engastado num anel ou colar, ou até numa coroa real, é uma jóia belíssima; além disso, seu preço é muito alto.
O homem conhece o diamante há milhares de anos. Uma das doze pedras preciosas que o Cohen Gadol (Sumo Sacerdote) usava o Choshen (Peitoral) do Efod (veste do Sumo Sacerdote), representando as doze tribos de Israel, era um diamante.
O diamante é conhecido por ser a pedra mais dura e mais resistente. A palavra "diamante" é derivada de uma palavra grega que significa "inconquistável".
Há cerca de 130 anos, o diamante era bastante raro. Em 1866, os filhos de um fazendeiro na África do Sul encontraram uma pedra tão reluzente que chegava a soltar faíscas, e brincaram com ela, guardando-a entre seus brinquedos. Quando a mãe percebeu a pedra brilhante, deu-a a um vizinho, que a vendeu para um ambulante por alguns trocados. Aquela pedra era um diamante que depois foi classificado como pesando mais de 21 quilates.
As pessoas começaram a encontrar mais diamantes na mesma área. Em 1869, um pastor vendeu um diamante com mais de 83 quilates pelo preço de 500 ovelhas, dez vacas e um cavalo. A notícia do achado destes tesouros espalhou-se como fogo na mata. Logo havia milhares de "caçadores de tesouro" perto do Rio Vaal na África do Sul, onde os diamantes acima mencionados tinham sido encontrados. Alguns anos depois, começou a escavação no agora famoso campo de Kimberly. Ali também, o primeiro diamante foi encontrado por acaso.
Uns poucos "caçadores" chegaram ao local, onde mais tarde seria fundada a cidade de Kimberly. Eles estabeleceram uma fazenda. Isso foi no verão de 1871. Um dos trabalhadores fez algo de errado, e como castigo, foi mandado para cavar num campo das proximidades. Enquanto cavava, encontrou diamantes.
Houve uma corrida até o campo, e cerca de 1600 homens compraram cotas do lugar, embora tivesse apenas 10 acres de tamanho. Todos começaram a cavar em sua propriedade, e carregavam a rocha e a levavam por correntes até a mina na superfície; ai a "rocha" era lavada e filtrada, para fazer surgir os diamantes. O campo da mina foi transformado numa densa rede de correntes; fervilhava como uma colméia, todos trabalhando para si mesmos, não pensando no vizinho. Com freqüência, as finas paredes entre as minas desabavam, porque não havia um sistema de cooperação. Muitas vezes, um ou outro mineiro atingia um regato subterrâneo que inundava sua mina, e também as dos vizinhos.
Dois homens sonhavam criar um monopólio das minas de diamantes para eles próprios. Um deles era um inglês, Cecil Rhodes. Ele iniciou sua carreira alugando bombas de água para vários "escavadores", e pouco a pouco começou a adquirir pequenas cotas nos lucros. Também o outro homem, Barbey Barnatto, começou a comprar mais e mais cotas. Alguns anos depois Cecil Rhodes comprou as cotas de Barney Barnatto, e assim se tornou o único dono das famosas minas "De Beer". Este era o nome de uma família sul africana a quem os campos tinham pertencido originalmente, antes da descoberta dos diamantes.
Rhodes pagou 26 milhões de dólares para se tornar o único dono das minas de diamantes. A empresa que ele formou "Minas Consolidadas De Beer Limitada", atualmente controla a produção e o preço dos diamantes em todo o mundo.
Hoje em dia, 5 toneladas de diamantes são extraídas anualmente, e a maior parte vai para fins industriais, não para joalherias. O diamante pelo seu grau de dureza é usado para diversos propósitos: cortar ferro e aço, serrar pedras, polir, moer e raspar diversos tipos de instrumentos, etc.
O diamante industrial, embora inútil como jóia, é uma parte vital na indústria mecânica, como eletricidade ou outras formas de força. Em 1957, por exemplo, os Estados Unidos importaram 15 milhões de quilates de diamantes. Desse total, menos de 2 milhões de quilates foram para joalherias. O restante – mais de 13 milhões de quilates, ou quase 3 toneladas – eram diamantes industriais.
Como jóia, o diamante custa cerca de U$ 1000,00/quilate, ao passo que um diamante industrial custa apenas U$ 4,00/ quilate.
As minas de diamantes da África do Sul produzem a maioria dos diamantes. O Congo Belga (atual República do Congo, na África Central) tem a maior quantidade de diamantes industriais. Em 1957, 13 milhões de quilates foram extraídos, porém 95% deles eram da qualidade industrial, mais barata, que é moída até virar pó para fins de polimento. A África como um todo produz 97% de toda a produção mundial de diamantes. A produção mundial supera os 23 milhões de quilates por ano. Tanganica, Gana, África Ocidental Francesa e outras partes do Continente Negro também produzem boa quantidade de diamantes, mas todos são vendidos através da empresa De Beer.
Um dos primeiros países onde os diamantes foram descobertos foi a Índia. Ali os diamantes eram conhecidos há mais de 2000 anos. Segundo a lenda, o famoso "Koh-I-Noor" ("montanhas de luz"), que hoje faz parte dos tesouros da Coroa Britânica, foi descoberto na Índia.
Houve certa vez um diamante com uma lenda ligada a ele, chamado "o grande Mogul", e pesava 787 quilates. Há cerca de 300 anos, desapareceu, e foi cortado em pedras menores. Uma dessas partes, pesando 280 quilates foi utilizado para a coroa de um marajá indiano.
Dentre os tesouros russos, há um diamante das jóias da coroa dos antigos czares. É chamado "Orloff", e pesa 220 quilates. Um soldado francês o roubou de um templo hindu, do olho de uma estátua que ali havia. Isso ocorreu em 1700. A pedra mudou de mão muitas vezes, sempre com derramamento de sangue envolvido, até que chegou a Amsterdã em 1774. Ali, um príncipe russo, Orloff, comprou-a (por cerca de meio milhão de dólares) e deu-a de presente à rainha Catarina II. Alguns acreditam que também fazia parte do "Grande Mogul" extraviado.
Um dos diamantes mais famosos é o "Hope", uma pedra enorme, azul, rara. Está envolvido nas mortes trágicas de doze pessoas; também causou tragédias em duas famílias reais. É parte de uma pedra maior, que pertenceu ao rei francês, Luiz XIV. Foi roubado na época da Revolução Francesa. Posteriormente, apareceu na Inglaterra (44 quilates) onde um banqueiro, Henry Thomas Hope, comprou-a em 1800. Mais tarde, um sultão turco, Abdul Al Hamid, comprou-a, e a deu para sua esposa favorita usá-la ao redor do pescoço. Aparentemente o diamante também trazia má sorte, pois ele perdeu o trono. A pedra agora pertence a um mercador de diamantes em Nova York.
O maior diamante do mundo foi encontrado na Mina Premier em Transvaal, na África do Sul. Esta nova mina de diamantes foi descoberta em 1902 por um tal Thomas Cullinan. Três anos depois, o capataz, Frederick Wells, percebeu um raio de luz na lama de uma mina aberta; com seu canivete, ele desenterrou o maior diamante do mundo – 3106 quilates, ou meio quilo de peso. O Governo de Transvaal presenteou o "gigante" ao Rei Edward VII da Inglaterra. A pedra foi chamada de "Cullinan". O rei escolheu o famoso lapidador, J. Osher de Amsterdã, para cortar a pedra. Este especialista estudou a pedra durante meses. Uma batida no lugar errado poderia partir a o diamante em pedaços.
As responsabilidade e a tensão eram indescritíveis. Algumas vezes ele desmaiou durante o trabalho. Finalmente, partiu com sucesso em nove diamantes grandes, e 100 jóias menores. A pedra maior pesava 530 quilates e foi engastada no Cetro real. A pedra leva o nome de "Primeira Estrela da África".
A "Segunda Estrela da África" do diamante Cullinan pesa cerca de 130 quilates, e enfeita a Coroa Real Britânica, que é usada na Coroação.
Cortar e polir um diamante bruto de tamanho grande pode levar um ano. O especialista precisa de extrema paciência, arte, e nervos de aço. Cada diamante tem suas próprias peculiaridades. O lapidador estuda os "músculos" internos, ou gramatura da pedra, faz diversas linhas demarcatórias ao redor do diamante, de modo a obter a pedra maior e o menor número possível de pedras pequenas; quanto maior a pedra, mais alto é o preço.
Às vezes ocorre que um especialista corte a pedra com uma batida do martelo no ponto exato, como fez J. Osher com o diamante Cullinan (e desmaiou na mesma hora). Ele foi informado mais tarde que o golpe tinha sido perfeito. Atualmente, os diamantes são cortados por serras especiais. São rodas, finas como papel, cobertas com pó de diamante misturado com azeite de oliva, e giram mecanicamente a grande velocidade, serrando o diamante bem lentamente, muitas vezes durante semanas. Somente um diamante pode cortar outro, porque não existe substância mais dura que o diamante.
Mas por que estamos contando sobre a história dos diamantes com tantos detalhes? Por que tudo que é criado no mundo, certamente possuí um propósito Divino.
O Báal Shem Tov, cujo aniversário é a 18 de Elul, declarou que todo judeu é um "diamante", porque possui as qualidades naturais daquela gema; é duro e determinado (um povo que não se dobra), e inconquistável na sua profunda crença interior no Todo Poderoso; os traços e qualidades inatas do judeu reluzem como raios do sol. Porém, assim como um diamante é bruto e opaco quando retirado da terra, e somente após ser lavado, raspado e polido emerge o verdadeiro "diamante", o mesmo ocorre com cada judeu. Suas boas qualidades estão ocultas no seu âmago, sob uma camada de "lama" que precisa ser lavada e limpa, até que sua centelha interior brilhe até a superfície. Aqui também, muita paciência e amor são necessários, grande Ahavat Yisrael (amor ao próximo) para fazer surgir aquilo que há de bom no outro. A pessoa precisa atingir o "ponto" certo.
Da mesma forma que é preciso um diamante para cortar e polir outro diamante, o mesmo ocorre com cada judeu. É somente num ambiente genuinamente judaico, que instila sabedoria de Torá e incentiva o cumprimento das mitsvot, que um judeu pode desenvolver suas qualidades da forma mais pura e elevada.

segunda-feira, novembro 11, 2013

Eu respondo

Em 2010 postei um umas perguntinhas com respostas sobre mim, tive que rir.
Essa coisa de diário é bem divertido, como a gente muda, santo Deus!
Eis que me proponho a responder às mesmas perguntas, mas vou deixar as respostas anteriores em preto e as desse ano em vermelho:

Eu respondo...

Perguntas:


Que horas você acordou hoje? Acho que por volta das 9:20 da manhã
acordei atrasada, 5:30
Diamantes ou pérolas? Diamantes ora! os dois
Qual foi o último filme que você viu no cinema? Chico Xavier, hoje. Meu passado me condena (nacional)
O que você come geralmente no café da manhã? Um pãozinho com alguma coisa Pão de sal com requeijão e café preto
Qual comida você não gosta? Não gosto de carne de porco, pimenta... mesma resposta
CD favorito? São tantos... Não se ouve mais cds, hoje só se ouve músicas no celular
Sanduíche favorito? X-tudo x- chicken
O que detesta? Que me chamem de gatinha vingança
Se você pudesse ir pra qualquer parte do mundo de férias, pra onde você iria? São Paulo hawaii
Onde você gostaria de se aposentar? Em Paris  numa casinha com um jardimmuitop grande e verde
Qual foi o seu aniversário recente mais memorável? O de 28 anos  o de 32 anos
Esporte preferido pra assistir? Surf  Surf
Quando é o seu aniversário? 04 de junho
Você é uma “morning person” ou uma “night person”? Uma pessoa do dia
Quanto você calça? 34
Animais de estimação? sim
Alguma novidade que você gostaria de compartilhar? To deixando de gostar dele... Já estou pronta
O que você dizia que queria ser, quando criança? Advogada médica
Como você está hoje? Saudosa  lúcida de vida
Qual é o seu doce preferido? Chocolate doce de banana, doce de abóbora (aqueles da venda)
Qual a sua flor favorita? Esporinha 
Por qual dia do calendário você está esperando ansiosamente? Dia 02 de maio  14 de dezembro
Qual o seu nome completo? C...
O que você está escutando agora? nada The call - Regina Spektor
Qual foi a última coisa que você comeu? Um resto de ovo da Páscoa o café da manhã
Você faz pedido para as estrelas? Sim
Se você fosse um lápis de cor, que cor seria? Vermelho
Como está o tempo agora? Frio sol lá fora
Última pessoa que você falou no telefone? Angell  Tainara 
Refrigerante preferido? Fanta laranja
Restaurante preferido? Japonês
O seu brinquedo preferido quando criança? Atari minha boneca
Inverno ou verão? Verão
Beijos ou abraços? Abraços apertados e beijos apaixonados
Chocolate ou Baunilha? Chocolate e baunilha
Café ou chá? Nenhum! aprendia a tomar chá e passei a gostar, tb aprendi a tomar café espresso
O que tem debaixo da sua cama? um tapete nada mais, só o piso
O que você fez na noite passada? Internet, trabalho sobre sífilis Assisti Sai de baixo, joguei no facebook
Do que você tem medo? De passar o resto da vida sozinha que alguém me mate
Salgado ou doce? Salgado
Quantas chaves tem no seu chaveiro? 8 10
Dia preferido da semana? Sexta-feira quarta-feira
Em quantos lugares você já morou? 24
Você faz amigos facilmente? Çim Não preciso de amigos


Os “loucos” são aqueles que dizem mais dos “normais” do que de si mesmos

Os loucos, os normais e o Estado

Os “loucos” são aqueles que dizem mais dos “normais” do que de si mesmos: o livro 'Holocausto Brasileiro' conta um capítulo tão tenebroso quanto escondido da história recente do Brasil – e que está longe de ser encerrado

por Eliane Brum

Ele tinha passado 21 anos como mudo na instituição batizada de“Colônia”, considerada o maior hospício do Brasil, no pequeno município mineiro de Barbacena. Em 21 anos, nenhum médico ou funcionário tinha lhe perguntado nada. Aos 68 anos, Antônio ainda não sabe por que passou 34 anos da vida num hospício, para onde foi despachado por um delegado de polícia. “Cada um diz uma coisa”, conta. Ao deixar o cárcere para morar numa residência terapêutica, em 2003, Antônio se abismou de que era possível acender e apagar a luz, um poder que não sabia que alguém poderia ter. Fora dos muros do manicômio, ele ainda sonha que está amarrado à cama, submetido a eletrochoques, e acorda suando. A quem escuta a sua voz, ele diz: “Se existe um inferno, a Colônia é esse lugar”.  
Antônio ganhou nome, identidade e história em uma série excepcional de reportagens. Publicado na Tribuna de Minas, de Juiz de Fora (MG), o trabalho venceu o prêmio Esso de 2012 e foi ampliado para virar um livro que chega às livrarias nesta semana. Na obra, a jornalista mineira Daniela Arbex ilumina o que chamou de “holocausto brasileiro”: a morte de cerca de 60 mil pessoas entre os muros da Colônia ao longo do século XX. Convidada por Daniela para fazer o prefácio de seu livro, abri uma exceção e aceitei, pela mesma razão que me move a escrever esta coluna: a importância do tema para compreender nossa época.
Em Holocausto Brasileiro (Geração Editorial), Daniela Arbex devolve aos corpos sem história, que eram os corpos dos “loucos”, uma história que fala deles, mas fala mais de nós, os ditos “normais”. Durante décadas, as pessoas eram enfiadas – em geral compulsoriamente – dentro de um vagão de trem que as descarregava na Colônia. Lá suas roupas eram arrancadas, seus cabelos raspados e, seus nomes, apagados. Nus no corpo e na identidade, a humanidade sequestrada, homens, mulheres e até mesmo crianças viravam "Ignorados de Tal".
O horror: enfiadas num vagão de trem, mulheres como esta tinham as roupas arrancadas e os nomes esquecidos ao entrar no hospício para serem apagadas da história  (Foto: Luiz Alfredo/FUNDAC. )
Qual é a história dos corpos sem história? Esta é a questão que Daniela se propõe a responder pelo caminho da investigação jornalística. Eram Antônio Gomes da Silva, o mudo que falava, Maria de Jesus, encarcerada porque se sentia triste, Antônio da Silva, porque era epilético. A estimativa é de que sete em cada dez pessoas internadas no hospício não tinham diagnóstico de doença mental. 
Quem eram eles, para além dos nomes apagados? Epiléticos, alcoolistas, homossexuais, prostitutas, mendigos, militantes políticos, gente que se rebelava, gente que se tornara incômoda para alguém com mais poder. Eram meninas grávidas, violentadas por seus patrões, eram esposas confinadas para que o marido pudesse morar com a amante, eram filhas de fazendeiros que perderam a virgindade antes do casamento. Eram homens e mulheres que haviam extraviado seus documentos. Alguns deles eram apenas tímidos. Cerca de 30 eram crianças. 
Qual era o destino de quem o Estado determinava que não podia viver em sociedade, que era preciso encarcerar, ainda que não tivesse cometido nenhum crime? Homens, mulheres e crianças às vezes comiam ratos, bebiam esgoto ou urina, dormiam sobre capim, eram espancados e violados. Nas noites geladas da Serra da Mantiqueira, eram atirados ao relento, nus ou cobertos apenas por trapos. Instintivamente faziam um círculo compacto, alternando os que ficavam no lado de fora e no de dentro, na tentativa de não morrer. Faziam o que fazem os pinguins imperadores para sobreviver ao inverno na Antártica e chocar seus ovos, como se viu num documentário que comoveu milhões anos atrás. Os humanos da Colônia não comoviam ninguém, já que sequer eram reconhecidos – nem como humanos nem como nada. Alguns não alcançavam as manhãs.
Os pacientes da Colônia morriam de frio, de fome, de doença. Morriam também de choque. Em alguns dias os eletrochoques eram tantos e tão fortes que a sobrecarga derrubava a rede do município. Francisca Moreira dos Reis, funcionária da cozinha, conta no livro sobre o dia em que disputou uma vaga para atendente de enfermagem, em 1979. Ela e outras 20 mulheres foram sorteadas para realizar uma sessão de eletrochoques nos pacientes masculinos do Pavilhão Afonso Pena, escolhidos aleatoriamente para o “exercício”. As candidatas à promoção cortavam um pedaço de cobertor e enchiam com ele a boca da cobaia, amarrada à cama. Molhavam a testa, aproximavam os eletrodos das têmporas e ligavam a engenhoca na voltagem de 110. Contavam até três e aumentavam a carga para 120. A primeira vítima teve parada cardíaca e morreu na hora. A segunda, um garoto apavorado aparentando menos de 20 anos, teve o mesmo destino. Francisca, cuja vez de praticar ainda não tinha chegado, saiu correndo.
Nos períodos de maior lotação, 16 pessoas morriam a cada dia. Morriam de tudo – e também de invisibilidade. Ao morrer, davam lucro. Entre 1969 e 1980, mais de 1.800 corpos de pacientes do manicômio foram vendidos para 17 faculdades de medicina do país, sem que ninguém questionasse. Quando houve excesso de cadáveres e o mercado encolheu, os corpos passaram a ser decompostos em ácido, no pátio da Colônia, na frente dos pacientes ainda vivos, para que as ossadas pudessem ser comercializadas. Dos homens e mulheres do hospício, encarcerados pelo Estado e oficialmente sob sua proteção, até os ossos se aproveitava. 
Daniela Arbex salvou do esquecimento um capítulo que muitos gostariam que seguisse nas sombras, até o total apagamento, no qual parte dos protagonistas ainda está viva para refletir tanto sobre seus atos quanto sobre suas omissões. Entrevistou mais de 100 pessoas, muitas delas nunca tinham contado a sua história. Além de sobreviventes do holocausto manicomial, Daniela escutou o testemunho de funcionários e de médicos. Um deles, Ronaldo Simões Coelho, ligou para ela meses atrás: “Meu tempo de validade está acabando. Não quero morrer sem ler seu livro”. No final dos anos 70, o psiquiatra havia denunciado a Colônia e reivindicado sua extinção: “O que acontece na Colônia é a desumanidade, a crueldade planejada. No hospício, tira-se o caráter humano de uma pessoa, e ela deixa de ser gente. É permitido andar nu e comer bosta, mas é proibido o protesto, qualquer que seja a sua forma”. Perdeu o emprego. 
Em 1979, o psiquiatra italiano Franco Basaglia, pioneiro da luta pelo fim dos manicômios, esteve no Brasil e conheceu a Colônia. Em seguida, chamou uma coletiva de imprensa, na qual afirmou: “Estive hoje num campo de concentração nazista. Em lugar nenhum do mundo, presenciei uma tragédia como essa”. Hoje, restam menos de 200 sobreviventes da Colônia. Parte deles deverá ficar internada até a morte: são aqueles que foram tão torturados por uma vida dentro do hospício que já não conseguem mais viver fora. Parte foi transferida para residências terapêuticas para reaprender a tomar posse de si mesma. Sônia Maria da Costa está entre os que conseguiram dar o passo para além do cárcere. Às vezes ela coloca dois vestidos para compensar a nudez de quase uma vida inteira.
Ao empreender uma investigação jornalística para escrever este livro, Daniela leva adiante pelo menos três trabalhos fundamentais de documentação contemporânea: as 300 fotos feitas pelo fotógrafo Luiz Alfredo, para a revista O Cruzeiro, a primeira a denunciar a Colônia, em 1961(duas fotografias deste acervo são publicadas nesta coluna); a reportagem transformada no livro Nos porões da loucura (Pasquim), do jornalista Hiram Firmino; e o documentário Em nome da razão, de Helvécio Ratton, filmado em 1979, que se tornou o símbolo da luta antimanicomial.
Ao ler Holocausto Brasileiro – vida, genocídio e 60 mil mortes no maior hospício do Brasil, é prioritário resistir à tentação de acreditar que essa história acabou. Não acabou. Ainda existem no Brasil instituições que mantêm situações semelhantes às da Colônia, como algumas reportagens têm denunciado – ainda que não de forma maciça como no passado muito, muito recente, e com nomes mais palatáveis do que “hospício” ou “manicômio”. As conquistas produzidas pela luta antimanicomial, que botou fim às situações mais bárbaras, estão hoje sob ameaça de retrocesso. É nesse momento que entramos nós, a sociedade.
Se não quisermos continuar sendo cúmplices da barbárie descrita por Daniela Arbex neste livro, é preciso refletir sobre o nosso papel. É bastante óbvio perceber que fábricas de loucura como a Colônia só persistiram por um século porque podiam contar com a cumplicidade da sociedade. Mesmo quando o holocausto foi denunciado na revista de maior sucesso da época, O Cruzeiro, no início dos anos 60, passaram-se décadas até que a realidade do hospício começou – muito lentamente – a mudar. E outras gerações foram aniquiladas entre seus muros. Como é possível? É possível porque a sociedade prefere que seus indesejados sejam tirados da frente de seus olhos. Não enxergar, para muitos, ainda é solução. E esta é uma das razões pelas quais a tese do encarceramento sempre encontra ampla ressonância – e tem sido largamente manipulada por políticos ao longo da história do Brasil, e inclusive hoje.
Tivesse a sociedade disposta a enxergar o que estava estampado na revista preferida das famílias brasileiras, em 1961, e muitas tragédias teriam sido impedidas. Como a de Débora Aparecida Soares. Ela foi um dos cerca de 30 bebês roubados de suas mães. As mulheres trancafiadas na Colônia conseguiam proteger sua gravidez passando fezes sobre a barriga, para não serem tocadas. Mas, logo depois do parto, os bebês eram tirados de seus braços e doados. Débora nasceu em 23 de agosto de 1984. Dez dias depois, foi adotada por uma funcionária do hospício. A cada aniversário, sua mãe, Sueli Aparecida Resende, epilética, perguntava a médicos e funcionários pela menina. E repetia: “Uma mãe nunca se esquece da filha”.
Em 2005, aos 21 anos, Débora nada sabia sobre a sua origem, mas não conseguia pertencer de fato à família de adoção. Tentou o suicídio. Como os comprimidos demoravam a fazer efeito, dirigiu-se à estrada de ferro, a mesma onde décadas antes havia passado o trem que levara sua mãe ao inferno. Foi salva por uma amiga, que a carregou para o hospital no qual mais uma coincidência seria descoberta tarde demais. Dois anos depois, Débora iniciou uma jornada em busca da mãe. O que alcançou foi a insanidade da engrenagem que mastigou suas vidas. Sua busca pela mãe é um dos momentos mais trágicos e reveladores do livro, ao unir passado, presente e futuro no corpo em movimento desta filha.
Há uma tendência no senso comum de considerar que categorias como “loucos” são determinadas, imutáveis, indiscutíveis e, principalmente, isentas dos humores do processo histórico. Não são. Cada sociedade cria seus proscritos – uma construção cultural que varia conforme o momento e as necessidades de quem detém o poder a cada época. Há um livro essencial sobre este tema: Os infames da história – pobres, escravos e deficientes no Brasil (Faperj/Lamparina). Na apresentação, a autora, a psicóloga Lilia Ferreira Lobo, que escreve sob a inspiração de Michel Foucault, faz uma descrição primorosa:
“Existências infames: sem notoriedade, obscuras como milhões de outras que desapareceram e desaparecerão no tempo sem deixar rastro – nenhuma nota de fama, nenhum feito de glória, nenhuma marca de nascimento, apenas o infortúnio de vidas cinzentas para a história e que se desvanecem nos registros porque ninguém as considera relevantes para serem trazidas à luz. Nunca tiveram importância nos acontecimentos históricos, nunca nenhuma transformação perpetrou-se por sua colaboração direta. Apenas algumas vidas em meio a uma multidão de outras, igualmente infelizes, sem nenhum valor. Porém, sua desventura, sua vilania, suas paixões, alvos ou não da violência instituída, sua obstinação e sua resistência encontraram em algum momento quem as vigiasse, quem as punisse, quem lhes ouvisse os gritos de horror, as canções de lamento ou as manifestações de alegria.”
Aqueles que foram encarcerados dentro da Colônia e de outros hospícios do Brasil, em algum momento perturbaram alguém ou a ordem instituída com a sua voz – ou apenas com a sua mera existência. Em vez de serem escutados no que tinham a dizer sobre a sociedade da qual faziam parte, foram arrancados dela e trancafiados para morrer – primeiro pelo apagamento simbólico, depois pela falência do corpo torturado. A pergunta que vale a pena fazer neste momento, diante da história documentada pelo Holocausto Brasileiro, de Daniela Arbex, é: quem são os proscritos de nossa época?
Vale a pena repetir que, na Colônia, sete em cada dez não tinham diagnóstico de doença mental. O diagnóstico, além de não representar nenhuma verdade absoluta sobre alguém, perde qualquer possível valor num lugar como o hospício descrito. Sua única utilidade seria como justificativa oficial para retirar pessoas incômodas do espaço público, aquelas cujo sofrimento não poderia existir, violando neste ato seus direitos mais básicos. Mas o fato de 70% dos internos não ter nem sequer um diagnóstico é um dado importante para perceber com que desenvoltura os manicômios serviram – e ainda servem – a um propósito não dito, mas largamente exercido pelo Estado: o de ampliar as categorias das pessoas que não devem ser escutadas, calando todos aqueles que dizem não apenas de si, mas de toda a sociedade.
Vivemos um momento histórico muito delicado,em que está sendo determinado quais são os novos infames da história – e qual deverá ser o seu destino. E também em que medida o Estado tem poder sobre os corpos. Me arrisco a dizer que, se ontem os proscritos eram os epiléticos, as prostitutas, os homossexuais, as meninas pobres e grávidas, as esposas insubmissas, hoje os proscritos que se desenham no horizonte histórico são os drogados – e especificamente os “craqueiros”. E o destino apresentado como solução tem sido, de novo, a internação. Inclusive a compulsória. A tarja de dependência química funciona como um silenciamento, já que não teriam nada a dizer nem sobre a sociedade em que vivem, nem sobre sua própria vida. São apenas um corpo sujeitado ao Estado para ser “curado”. E, para a maioria, nada melhor do que tirá-los da frente – às vezes literalmente.
É bom aprender com a história. Holocausto Brasileiro é um excelente começo para uma reflexão não apenas sobre o passado, mas sobre o presente. Como afirma Daniela Arbex: “O descaso diante da realidade nos transforma em prisioneiros dela. Ao ignorá-la, nos tornamos cúmplices dos crimes que se repetem diariamente diante de nossos olhos. Enquanto o silêncio acobertar a indiferença, a sociedade continuará avançando em direção ao passado de barbárie. É tempo de escrever uma nova história e de mudar o final”.
Campo de concentração: uma das 300 cenas do holocausto brasileiro, registradas pela primeira vez pelo fotógrafo Luiz Alfredo, para salvar a história do esquecimento (Foto: Luiz Alfredo/FUNDAC)

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