domingo, outubro 31, 2010

Casamento e desejo: um acaba com o outro?


Cerimônias de casamento sempre me deixam um pouco melancólico. Em geral, esse sentimento se acerca na hora dos votos, quando os noivos, diante do padre e dos convidados, fazem a promessa solene e fatídica: amar e respeitar, por toda a vida. Antigamente se dizia “até que a morte nos separe”, mas a formulação foi trocada pela outra, menos mórbida.

Desde que me tornei adulto e tive experiência direta do casamento, passei a ter a impressão de que há uma omissão reveladora no voto matrimonial. Ele fala em “amar e respeitar”, mas não em “desejar”, embora o desejo seja um componente de enorme importância na vida dos casais. Alguém mais romântico dirá que o verbo desejar está implícito no verbo amar, mas eu não acho que seja tão simples.

A mim parece que o verbo desejar é omitido por não termos controle sobre ele. Respeitar é algo que podemos prometer. Depende da nossa vontade quase inteiramente. Amar, por outro lado, é tão abstrato, o verbo esconde tantas variedades de sentimentos, que algum deles, ou a soma deles, é certamente capaz de durar a vida inteira. Amor como carinho. Amor como amizade. Amor como admiração. Amor como dependência e necessidade do outro.

Quem não cabe nessa fórmula é o desejo.

Como se pode prometer desejar alguém para o resto da vida? Desejo é um impulso espontâneo que se manifesta de forma física. Como a raiva ou a repulsa ou o riso. Ele é básico, concreto. Nos homens não pode ser simulado. Ou se tem desejo ou não se tem. Não adianta fingir, embora se possa negar. Pode-se recusar o próprio desejo (aquilo que os religiosos chamariam de tentação) com base em convicções morais ou religiosas. Mas com base nessas mesmas convicções não se pode invocar o desejo. Ele só aparece quando quer, com quem quer.
Vem daí a minha melancolia com as cerimônias de casamento. Eu acredito sem hesitar que as pessoas vão se amar e se respeitar pelo resto da vida. Mas será que vão se desejar? Quanto tempo antes que aquele casal que não consegue tirar as mãos um do outro comece a se olhar com indiferença? Quantos anos antes que o sexo perca a graça e mergulhe em melancólica freqüência mensal ou quinzenal?

Confesso que sou pessimista quanto a isso. Toda vez que uma amiga se queixa que o fulano, seu namorado ou marido, “não é mais como era”, não sei muito bem o que dizer. É assim que acontece. E, ao contrário do que imaginam muitas mulheres, não tem a ver com falta de amor. O sujeito ama, mas não tem mais vontade de transar. Pelo menos não com a mesma frequência e a mesma intensidade. Dá pra entender?

É importante sublinhar a separação entre sexo e amor porque as mulheres enlouquecem com isso. Na cabeça delas sexo e amor (às vezes) formam um só pacote. Logo, se o sujeito já não exibe a mesma rigidez instantânea, só pode ser sinal de que deixou de amar.

Mas isso é loucura, uma vez que as próprias mulheres separam muito bem o seu afeto da sua vontade de fazer sexo. Outro dia eu ouvi a seguinte frase: “Eu não quero transar todo dia, mas quero que ele queira transar comigo todos os dias”. Por quê? Por que senão ela acha que “tem boi na linha”. Vaca, mais propriamente. Mas aí não dá, madame. O sujeito tem de ficar ali, mostrando serviço, para que a senhora não fique insegura? Já pro analista!

Descontadas as piadas, acho que nesse assunto se aplicam as escolhas, como em todos os demais. Quem quer emails apaixonados, olhares gulosos e sexo que vara a noite talvez não deva se casar. Nem morar junto. A vida matrimonial permite uma infinidade de coisas gostosas e importantes, ela dá um sentido especial à existência, mas ela, ao mesmo tempo, broxa uma boa parte dos casais. Pode acontecer com você, apesar do carinho mais imenso e dos votos solenes de casamento.

(Ivan Martins)

sábado, outubro 30, 2010

Eminem


Eminem, nome artístico de Marshall Bruce Mathers III, (St. Joseph,[1] 17 de outubro de 1972) é um rapper, produtor e ator dos Estados Unidos. Também conhecido como Slim Shady, é o vencedor de 174 prêmios, entre eles; um Óscar[2], onze Grammy[3], onze BMA[4], doze VMA, dez EMA, sete AMA[5], sete TCA, quatro PCA, entre outros.

Foi descoberto pelo rapper e produtor Dr. Dre, e mais tarde assinaria com a sua gravadora, Aftermath Entertainment. Já vendeu mais de 90 milhões de álbuns mundialmente (100 milhões se somar com as vendas de seu grupo, D12,[6] estando entre os artistas que mais venderam discos no mundo. É considerado pela revista Rolling Stone um dos 100 maiores artistas de todos os tempos.[7] Além de rapper, foi o ator principal no filme 8 Mile, que é uma semibiografia do rapper. O filme também ganhou um Óscar[8] por melhor canção em 2002 com "Lose Yourself".


Nasce Marshall Bruce Mathers III em 17 de outubro de 1972. Eminem relata que quando pequeno, estava sempre a ser agredido por sua mãe, que supostamente era dependente de drogas, a canção "Cleanin' Out My Closet" é um referência a isso e a quanto Eminem a odiava. Um dia, D'Angelo Baily jogou uma bola de neve com algo pesado no meio que atingiu a cabeça de Eminem. Teve uma hemorragia cerebral e ficou dez dias em coma. Ele até fez uma canção sobre isso, "Brain Damage".

Sua carreira começou em 1983, quando o seu tio, Ronnie, que tinha a mesma idade que ele, deu-lhe uma cópia de uma fita de Ice T, Reckless. Foi a partir daí que Eminem percebeu que queria ser rapper. Com dezessete anos, largou a escola e conheceu Proof, e os dois participavam de concursos de rap que eram realizados no Hip Hop Shop, em Detroit. "Assim que eu pegava no microfone ouvia vaias. Mas, depois que as pessoas ouviam minhas músicas, o pessoal ficava quieto", lembra Eminem sobre aquela época.

Em 1990, levou um tiro de uma gangue de seu bairro, mas não aconteceu nada de grave. Três anos depois, morre seu tio Ronnie, que havia cometido suicídio, com um tiro na cabeça. Algum tempo depois, juntou-se com Proof e outros quatro rappers, e formaram o grupo D12 (Dirty Dozen). No ano de 1996, ele lança o seu primeiro álbum, Infinite, o qual vende quase mil cópias. Como declarado pelo próprio, foi uma experiência para ver se a sua carreira decolaria, e foi como uma demo.

Um ano depois, participa do Scribble Jam e fica em segundo lugar, perdendo para o rapper Juice, fato que voltou a ocorrer no Rap Olympics de Los Angeles. Mesmo não vencendo, o produtor Dr. Dre interessou-se pelo rapper, sendo que Eminem então assina um contrato na gravadora de Dre, Aftermath.

Em 1998, lança The Slim Shady EP que foi como um demo antes do seu primeiro álbum comercial. De seguida começa a fazer The Slim Shady LP, o seu primeiro álbum numa grande gravadora. O primeiro single desse disco foi "Just Don't Give a Fuck". Este último teve grande sucesso, tendo sido lançado no dia 23 de fevereiro de 1999 nos Estados Unidos, sendo que o álbum ficou em terceiro lugar na Billboard por várias semanas. Em setembro, a mãe de Eminem lança um processo de 10 milhões de doláres contra ele por difamação pelo fato de sempre acusá-la de agredi-lo e abandoná-lo quando criança por ser dependente de drogas.

O seu segundo álbum, The Marshall Mathers LP é lançado no dia 23 de maio de 2000 nos Estados Unidos. Mesmo com a carreira solo, ele continua a integrar o grupo D12, e lança em 2001 o álbum Devil's Night. Dia 18 de outubro do mesmo ano começaram as filmagens para o primeiro filme do rapper, chamado 8 Mile.


Performance ao vivo no Anger Management Tour em agosto de 2005.Eminem continuava a fazer sucesso rapidamente pelos Estados Unidos, sendo que no dia 26 de maio de 2002 saiu o seu mais esperado álbum, The Eminem Show. O álbum sairia em 4 de junho, mas foi antecipado pois o mesmo vazou na internet, meses antes do lançamento oficial.

A carreira do artista chega ao auge em 2003, quando ele ganha quatro troféus no AMA, lança a sua grife de roupa Shady Limited, ganha dois Grammy, dois prêmios no Brit Awards, Oscar de melhor canção, prêmio de melhor ator e melhor ator revelação em 8 Mile no MTV Movie Awards 2003. Também participou da trilha sonora do documentário Tupac: Resurrection, feito em homenagem à Tupac Shakur. No ano seguinte, sai outro álbum do D12, D12 World. Eminem envolve-se em nova polêmica no mesmo ano quando moveu um processo contra a Apple, por usar ilegalmente a música "Lose Yourself" em sua propaganda veiculada na Europa.

O grupo D12 apresentou-se no Movie Awards 2004 e Eminem mostrou a sua bunda no evento, a qual teve a cena censurada e levantou nova polémica. Eminem, Interscope e Sirius, lançam uma rádio de hip hop sem censuras, no dia 28 de outubro, chamada Shade 45. No dia 12 de novembro, é lançado o quarto álbum solo do cantor, Encore, que teve o seu lançamento novamente antecipado devido a pirataria na internet. No dia 6 de dezembro de 2005, lançou o álbum Curtain Call: The Hits, que contém alguns dos grandes sucessos de sua carreira, como as canções "Stan" (com Elton John) e "Stan" (com Dido). Mas o sucesso ficou por conta de "Thank You", onde a mesma foi sampleada por Eminem, que mais tarde veio a se tornar um sucesso em todo o planeta.

No ano seguinte, foi lançado oficialmente nos Estados Unidos o novo álbum da Shady Records, Eminem Presents the Re-Up, produzido pelo Eminem. O álbum traz músicas de Obie Trice, Bizarre, Kuniva, Proof, Swifty, Eminem, Kon Artis, Stat Quo e os novos membros da gravadora, Bobby Creekwater e Ca$his. O álbum era para ter sido uma mixtape sendo lançada com edições limitadas, mas Eminem gostou tanto do projeto que decidiu expandir e torná-la um álbum oficial. Em 2009, foi anunciada a data de lançamento do sexto álbum de estúdio do cantor, intitulado Relapse, que aconteceu no dia 15 de maio, sendo que o primeiro single foi lançado em 7 de abril do mesmo ano. O álbum contém vários temas, entre eles "Crack a Bottle", "3AM", "Old Times Sake" e também "We Made You" como temas principais.[9] Ganhou o prêmio de "Melhor Videoclipe de Hip Hop" por "We Made You" no MTV Video Music Awards 2009 em Nova York.

No final do ano, a revista Billboard premiou o rapper como o Artista da Década[10] por ter todos seus álbuns estreando em primeiro lugar nas paradas e por ter vendido uma quantidade significativa dos seus álbuns, superando a marca de 80 milhões no mundo.[11] No Grammy de 2010, Eminem concorria em três categorias: "melhor canção de hip hop", com "Beautiful", "melhor álbum de hip hop", com Relapse, e "melhor canção em conjunto", com "Crack a Bottle" (feat. Dr. Dre e 50 Cent) tendo vencido as duas últimas. Também fez uma apresentação ao lado de Drake e Lil Wayne.

Em maio de 2010, Eminem lança por meio de sua rádio Shade 45 o primeiro single do seu novo álbum Recovery, "Not Afraid", que em sua primeira semana alcançou o topo da principal parada musical dos Estados Unidos, o Billboard hot 100, caindo para a 4ª posição nas semanas seguintes. O sétimo álbum de estúdio do rapper chegou ás lojas em 18 de junho de 2010 na Europa, e 22 de junho nos Estados Unidos. O segundo single, "Love the Way You Lie", com participação de Rihanna, também alcançou a primeira posição na parada norte-americana e o clipe dessa música bateu recorde no Youtube, sendo o vídeo que foi mais exibido (6,6 milhões de exibições) em 24 horas, sendo que esse número alcançou 14 milhões em 60 horas. [12]

quarta-feira, outubro 27, 2010

Endometriose



Endometriose é uma doença que acomete as mulheres em idade reprodutiva e que consiste na presença de endométrio em locais fora do útero. Endométrio é a camada interna do útero que é renovada mensalmente pela menstruação.

ONDE SE LOCALIZA ?

Os locais mais comuns da endometriose são: Fundo de Saco de Douglas (atrás do útero), septo reto-vaginal (tecido entre a vagina e o reto), trompas, ovários, superfície do reto, ligamentos do útero, bexiga, e parede da pélvis.



PRINCIPAIS SINTOMAS

O principal sintoma da endometriose é a dor, as vezes muito forte, na época da menstruação. Dores para ter relações também são comuns. Mas muitas mulheres que tem endometriose não sentem nada. Apenas tem dificuldade em engravidar. Por outro lado ter endometriose não é sinônimo de infertilidade, muitas mulheres com endometriose engravidam normalmente. 30 a 40 % das mulheres que tem endometriose tem dificuldade em engravidar.

CAUSAS ?

Há diversas teorias sobre as causas da endometriose. Há evidências que sugerem ser uma doença genética. Outras sugerem ser uma doença do sistema de defesa. Na realidade sabe-se que as células do endométrio podem ser encontradas no líquido peritoneal em volta do útero em grande parte das mulheres. No entanto apenas algumas mulheres desenvolvem a doença. Estima-se que 6 a 7 % das mulheres tenham endometriose.

GRAUS DA DOENÇA:

Para finalidades didáticas a endometriose foi classificada em graus de I a IV. Na prática verificou-se que estes graus não refletem obrigatoriamente a gravidade da doença ou suas chances de tratamento. Muitas vezes uma endometriose grau I é pior, em termos de fertilidade e sintomas, que uma de grau IV.

DIAGNÓSTICO:

O diagnóstico de suspeita da endometriose é feito através da história clínica, ultra-som endovaginal na época da menstruação, exame ginecológico. A certeza, porém, só pode ser dada através do exame anatomo patológico da lesão, ou biópsia. Esta pode ser feita através de cirurgia, laparotomia, ou, preferível, laparoscopia. Laparoscopia é um procedimento de exame e manipulaçãoda cavidade abdominal através de instrumentos de ótica e/ou vídeo bem como de instrumentos cirúrgicos delicados que são introduzidos através de pequenos orifícios no abdomem. É um procedimento cirúrgico realizado geralmente com anestesia geral.

TRATAMENTO:

Atualmente não há cura para a endometriose. No entanto a dor e os sintomas dessa doença podem ser diminuídos.

As principais metas do tratamento são:

Aliviar ou reduzir a dor.

Diminuir o tamanho dos implantes.

Reverter ou limitar a progressão da doença.

Preservar ou restaurar a fertilidade.

Evitar ou adiar a recorrência da doença.

O tratamento cirúrgico pode ser feito com laparotomia ou laparoscopia. Os implantes de endometriose são destruídos por coagulação à laser, vaporização de alta freqüência, ou bisturi elétrico. A decisão cirúrgica é importante. A maior parte dos sucessos terapêuticos ocorrem após uma primeira cirurgia bem planejada. Cirurgias repetidas são desaconselhadas pois aumentam a chance de aderências peritoneais tão prejudiciais como a própria doença.

O tratamento clínico de formas brandas em mulheres que não pretendem engravidar pode ser feito com anticoncepcionais orais. Há um certo consenso entre os estudiosos que o pior a fazer é não fazer nada já que a doença é evolutiva.

Em mulheres que pretendem engravidar o tratamento pode ser feito com cirurgia e tratamento hormonal ou tratamento hormonal e depois cirurgia.

Varias drogas tem sido usadas Danazol, Lupron, Synarel, Zoladex, depot-Provera, Norplant e Neo-Decapeptil.

O mais importante no tratamento da endometriose é o planejamento das ações terapêuticas em comum acordo com o planejamento da gravidez pelo casal.

Em casos muito severos a gravidez só será possível através de técnicas de fertilização assistida e inseminação artificial.


segunda-feira, outubro 25, 2010

Espelho, espelho não é meu


Descobri que viajar é trocar de espelho. Em casa, o espelho que nos reflete não mostra nossa mudança. Como todos os objetos da nossa rotina, como nossa rotina mesmo, o espelho da casa é um espelho domesticado. Sabemos o que vamos enxergar. Às vezes até achamos que controlamos este espelho como dominamos as mesas e as cadeiras, a posição do sofá, o canal do controle remoto, o dia de lavar os lençóis da cama. Mesmo quando notamos um quilo a mais ou um par de olhos mais fundos, aquele espelho é nosso e por ser nosso nos ameaça menos. Damos uma passadinha diante dele, às vezes involuntária, e ele nos conforta ao garantir que, sim, estamos lá. Sou eu que olho para mim. E aquela superfície lisa me garante que existo.

Quando deixamos nosso mundo e partimos em direção a outros destinos, a primeira paisagem que nos espanta é nossa própria geografia. Ao bater a porta de casa em direção ao novo, a primeira imagem familiar que abandonamos é a de nós mesmos. Nos deslocamos primeiro em nós. E o primeiro estrangeiro que nos espanta é o que nos encara do espelho da estação rodoviária ou do aeroporto, do banheiro do posto de gasolina. Quem é esta pessoa que me olha? Com frequência, somos tentados a fazer a pergunta da poeta Cecília Meireles: “Em que espelho ficou perdida a minha face?”.

Toda viagem contém nossa esperança de sermos mais livres, mais felizes, mais aventureiros, mais relaxados, melhores. Em geral, deixamos um cotidiano que nos confina a uma vida que para muitos é menor e mais apertada do que nos sonhos. Ao botar o pé na estrada, temos a expectativa de embarcar numa outra forma de ser e de viver, em um outro eu que nos parece mais verdadeiro que aquele que acorda todo dia de manhã para seguir um roteiro previsível. Como se longe de casa tivéssemos uma espécie de autorização para finalmente sermos um tal de eu mesmo.

Então, a primeira surpresa. Aquele rosto que nos estranha no espelho do caminho é nosso. Nos perturba mais porque sabemos que é nosso, ainda que diferente pelo ângulo, pelo tamanho e pela luz desconhecidas do objeto que nos reflete com outras verdades. E já ali, neste primeiro confronto, vemos algo que não sabíamos sobre nossa face, algo que o espelho domesticado não havia nos mostrado. Começamos a compreender ali o pior e o melhor das viagens: o risco. Talvez o que as pessoas que detestam sair de casa ou alterar a rotina mais temam é justamente o que podem ver de si mesmas num espelho que não é o seu.

É só ao sair que descobrimos que não podemos sair. Podemos embarcar apenas em nosso próprio corpo. Às vezes aquelas malas todas, aqueles tantos sapatos e roupas, são apenas uma tentativa inconsciente e desesperada de evitar a descoberta de que somos nossa própria bagagem e viajamos apenas com tudo o que somos. Nem mais nem menos, nosso excesso de peso é nossa nudez. É preciso abrir a porta da rua para compreender que ela só abre para dentro e só leva para dentro.

É o que diz o poema de Fernando Pessoa, estampado no último andar do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. “Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre diferentes, como, afinal, as paisagens são. (...) A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos não é o que vemos, senão o que somos”.

Viajar é uma escolha profunda, que não depende da distância nem do destino. Nela, estamos sempre sozinhos, ainda que no meio de hordas de turistas. As paisagens externas iluminam nossa paisagem interior, para o bem e para o mal. Não visitamos Roma, Nova York ou Paris, as pirâmides do Egito, o deserto do Saara, as savanas africanas, o Rio de Janeiro, a Amazônia ou o outro lado da rua. O que fazemos é revisitar a nós mesmos no contato com diferentes culturas e percepções de mundo. A mudança de paisagem ilumina os cantos escuros dos precipícios e as profundezas dos lagos que nos habitam. Sempre esperamos que exista em nós um belvedere, é esta a nossa expectativa ao viajar. E nem sempre é um belvedere o que encontramos. Por isso toda viagem é subjetiva e, possivelmente, quando detestamos um lugar ou um povo é porque não gostamos do que vimos em nós.

Sempre que viajo cruzo com pessoas, cada vez mais pessoas, que se interessam apenas pelo que podem comprar nas lojas de cada destino. Que em geral são sempre as mesmas em toda parte. Transformam a experiência de viajar numa experiência de consumo. O planeta passa a ser um grande shopping com diferentes arquiteturas. E lá gastam tudo o que podem para manter a ilusão de que viajam em perfeita segurança porque este mundo – o do consumo – conhecem bem. Acreditam secretamente que assim não se arriscam. O que não sabem, mas em algum momento vão acabar descobrindo diante do espelho do banheiro, é que a única viagem impossível é a fuga de si mesmo.

Existem ainda os que fotografam ou filmam tudo, o tempo todo, na tentativa de controlar sua imagem no espelho. Veem o mundo protegidos pela lente da câmera. Não experimentam, não se expõem, não vivenciam – apenas registram. Não o registro da vida vivida, mas o registro de que estiveram lá sem estar. Viajam para colecionar imagens, não para viver experiências e serem transformados por elas. Para estes, a imagem vale mais que a vida, quase a substitui. A vida é risco – a fotografia pode ser manipulada e melhorada com photoshop. Vão descobrir onde estiveram ao se assistirem sorridentes em diferentes cenários onde posaram como personagens de si mesmos.

Assim como há aqueles que esperam que uma viagem vá mudar radicalmente o curso de sua existência. É possível que mude. Mas talvez não do jeito que esperam se o que esperam é se transformar num outro.

Toda viagem é sem volta e leva sempre ao mesmo lugar: a nós mesmos. Ao final de cada uma, o melhor que podemos esperar é termos nos tornado mais o que somos. Ter alcançado porções mais longínquas de nossa própria geografia, mesmo que esta seja uma floresta densa e sombria. Ter sido ampliado pela experiência de se arriscar a olhar para dentro, escalando nossas próprias montanhas, mais altas que o Everest, e atravessando nossos rios internos a nado, ainda que eles estejam infestados de piranhas e jacarés famintos.

Na paisagem interna de todos nós há partes selvagens que nos provocam medo. Há monumentos dos que vieram antes que podem nos pesar ou atrapalhar, ainda que nos deslumbrem com sua grandeza. Há ruínas que lamentamos, há abismos que nos parecem intransponíveis e há também largas porções de sol e de praias de águas transparentes se procurarmos com afinco. Somos variados como o mundo que nos encanta e assusta ao mesmo tempo. Só precisamos olhar com coragem para o espelho que nos reflete e descobrir aonde ele vai nos levar. Não há setas indicando o caminho. Como dizem aqueles que moram na beira das estradas com precisão mal compreendida, aos viajantes que perguntam por direção: siga em frente, toda vida.

(Eliane Brum )

quinta-feira, outubro 21, 2010

Pessoas


Todos os dias se reúne na nossa cabeça um tribunal que julga nossos atos à luz do que deveríamos ser. E raramente nos saímos bem dessa comparação, homens ou mulheres. Há um déficit de expectativa que vai sendo administrado pela vida afora. O tempo e a maturidade ajudam a reduzir o fardo, mas não o eliminam. Dentro de nós permanece uma voz que critica, compara, critica, compara, critica...



Não sei se adianta dar conselhos sobre essas coisas, mas vou fazer as minhas observações.


As mulheres mais interessantes que eu conheço são originais. Elas não cabem nos dois modelos de sedutora dos filmes, que admite apenas as variedades “misteriosa” e “meiga”. Elas são muito diferentes disso. Algumas são tímidas e nos atraem por causa disso. Outras falam demais e nos provocam ternura. Há as brilhantes e as bravas, cuja aprovação nos parece um prêmio. E as safadas, que, ao nos escolher entre tantas experiências e possibilidades, nos fazem sentir realmente especiais.


Nenhuma dessas mulheres é perfeita. Nenhuma delas saiu de um filme de suspense ou de uma comédia romântica com as falas prontas. Elas são de verdade e por isso erram, gaguejam, bebem demais e às vezes perdem as estribeiras, o que as torna humanas e amáveis, no sentido de poderem ser amadas


Da minha parte, tenho preferência por seres humanos meio perdidos, que parecem perguntar todos os dias o que os trouxe ao mundo e para quê. As pessoas que nasceram com GPS e sabem a cada momento para onde estão indo não me provocam empatia. Tendo a me apaixonar pelas fragilidades dos outros, assim como outros homens que eu conheço se apaixonam pela força e pela virtude das mulheres. Somos diversos, não somos?


O importante, eu acho, é se livrar dos estereótipos. Hoje em dia a moça que queria ser misteriosa já deve saber que ela é um estouro à sua própria maneira escrachada, assim como eu percebi que o Clint Eastwood é genial na tela, mas não cabe nem por um segundo na minha vida.


A gente vive, vai iluminando os pedaços escuros da alma (e da biografia) e percebe que aquilo que fizemos de nós mesmos é mais interessante do que os personagens do cinema.Os modelos que tinham nos vendido na adolescência ficaram obsoletos. A moda no século 21 é ser você mesmo, sem causar danos aos outros e ao meio ambiente.

segunda-feira, outubro 18, 2010

Aa mães não deveriam morrer

Uma amiga perdeu a mãe, de repente. A notícia me alcançou por e-mail, agora que a internet deixou o mundo pequeno. Estou longe, mas também aqui, neste lugar sem distância que é o mundo virtual. Mas com tempo veloz, em que uma hora pode ser um pretérito definitivo na disputa pela supremacia dos segundos. Como era antes, quando as notícias levavam meses para chegar e o mundo sobre o qual falavam já tinha inteiro se transmutado, quando as cartas eram sempre um retrato do passado? Agora tudo é agora. E os tempos se confundem de outro modo. Mas se confundem.

Senti tanto o desamparo da minha amiga, porque sei que as mães não deveriam morrer. Na mesma noite sonhei com meus mortos. Meu avô sentava-se com minha avó ao redor da mesa da cozinha como antes e como nunca, porque meu avô sabia que minha avó tinha morrido e eu sabia que meu avô tinha morrido uns 20 anos depois dela. E uma quarta pessoa, desconhecida de todos nós reunidos naquela cozinha, sabia que eu também já tinha morrido, numa outra época que ainda não chegou para mim. Mas comíamos bolinhos de chuva naquela mesa porque compreendíamos que, no curto espaço de existência, neste soluço entre o nascimento e a morte que pertence a cada um de nós, nem os sonhos devem ser desperdiçados. E ali, enquanto eu dormia num quarto de hotel, éramos uma impossibilidade lógica que conversava e que ria.

Quando perdemos alguém que amamos, a dor é tão extravagante que nos come vivos, como se fosse uma daquelas formigas africanas que vemos nos documentários da National Geographic. A dor está lá quando acordamos. Continua lá quando respiramos. Nos espreita do espelho diante do qual escovamos os dentes pela manhã com um braço que pesa uma tonelada. E, quando por um instante nos distraímos, crava seus dentes bem no coração. Neste longo momento depois da perda, sabemos mais dos buracos negros do que os astrônomos porque carregamos um dentro de nós. E arrancamos cada dia nosso do interior de sua boca ávida, com uma força que não temos, para que não nos sugue de dentro para dentro.

Devagar, bem devagar, muito mais devagar do que o mundo lá fora nos exige, o vazio vai virando uma outra coisa. Uma que nos permite viver. Descobrimos que nossos mortos nos habitam, fazem parte de nós, correm em nossas veias fundidos a hemácias e leucócitos. Que suas histórias estão misturadas com as nossas, que seus desejos se deixaram em nós. Que, de certo modo, somos muita gente, multidão. Como também nós seremos em muita gente, deixando, em cada um, ecos de diferentes decibéis e intensidades. Acolhemos então aquele que nos falta de uma forma que nunca mais nos deixará. Como saudade. E como saudade não poderá mais partir.

Somada, a vida humana é um rio barulhento de memórias no leito do tempo. Enquanto outras espécies sabem, sem que ninguém tenha ensinado, que precisam voar para o sul para não sucumbir no inverno ou que devem escalar dezenas de metros de uma árvore em busca da fêmea para se acasalar num momento preciso, nós perpetuamos lembranças. Não é uma intuição prática, no sentido ordinário do termo. Mas é tão vital quanto o acasalamento ou a fuga do inverno.



Bem como a natureza tece mil expedientes para perpetuar seus genes, pertençam eles a um chimpanzé ou a uma mosca; nós, cuja diferença evolutiva nos permitiu inventar a cultura e ser na cultura, perpetuamos a vida através da memória. Já que, para nós, não há vida sem a consciência da vida. Transmitimos as histórias, o conhecimento e os sentimentos dos que se foram, tanto como humanidade quanto como indivíduo, como se fossem parte de um DNA imaterial. Do contrário, seria impossível conviver com o privilégio de nossa espécie, a consciência do fim.

Quem não entende isso acha que, quando doamos as roupas e os objetos de quem amamos e se foi ou deixamos de chorar no cemitério, superamos a perda. Não acredito que exista superação no sentido do esquecimento. O que acontece é que compreendemos que aquela pessoa não estará mais no mundo externo, não pertence mais a ele. Mas também não é mais um vazio que grita como nos primeiros meses, às vezes anos. Ela agora mora no mundo de dentro, vive como memória nossa, em nós. E assim não está mais morta, mas viva de um outro jeito. É o que me ensina João, o homem que divide comigo a aventura arriscada de viver. De luto por sua própria mãe, percebo que a carrega nos olhos quando se maravilha com a novidade do mundo.

Ele me ensina que a vida dos mortos em nós não é possessão nem fantasma. Nem é morte. O mórbido é quando não conseguimos dar um lugar vivo para o morto. Então a memória fica pregada naquele momento de horror e a vida se torna impossível, porque a existência não é água parada, mas rio que corre. Acontece quando alguém, pelos mais variados motivos, não consegue fazer o luto e dar um lugar de saudade para a dor. Quando nos fixamos, num dogma ou numa falta, partes importantes de nós gangrenam. Mas quando os mortos se acomodam em nós como lembrança que muda segundo o viver de quem vive, tudo flui. Se há algo que a vida é em essência é movimento. E o luto é um movimento que reabre as portas para a vida ao romper com a rigidez da morte em nós. Por isso, para o luto não pode haver pressa, porque é grande e largo o gesto que temos de fazer acima e apesar do horror que nos atinge até mesmo em partes que nem sabíamos que existiam.

Quando perdeu a mãe, João compreendeu por completo a poesia que Carlos Drummond de Andrade escreveu para a poeta Ana Cristina Cesar, que se suicidou aos 31 anos atirando-se pela janela do 13° andar. Ela fala da diferença entre falta e ausência. “Por muito tempo achei que a ausência é falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim.” É isso. A ausência não é falta. Ou, dito de outro modo, a falta nos come vivos. A ausência, por paradoxal que pareça, nos preenche.

Há um filme de extraordinária beleza sobre a perda, a saudade e o lugar dos mortos em nós. Chama-se “Hanami – Cerejeiras em flor” (Doris Dörrie, 2008 – Alemanha/França). Passou nos cinemas, ainda resiste numa sala ou outra, mas já assisti ao filme na TV por assinatura. Se você encontrar este nome na programação, não deixe de ver. Feche as cortinas, proteja-se do barulho da rua, programe-se para algo especial. O filme conta a história de um homem que não gosta de sair da rotina em sua viagem mais longa e menos previsível. Ele parte em busca de sua mulher e só a encontra quando descobre que ela está dentro dele, nos gestos dele, no corpo e nos olhos que ele empresta a ela. É um filme sobre a morte que nos leva ao único lugar onde vale a pena chegar, à vida.

Quando sofremos uma grande perda ou somos abalroados por uma catástrofe pessoal de outro gênero, as pessoas dizem, para nos consolar e com as melhores intenções, que tudo passa. Acho que, na verdade, nada passa. A frase mais precisa seria que tudo muda. Também nós que aqui estamos como matéria um dia seremos apenas eco. Tanto pelas nossas células que alimentam e se agregam a outros seres vivos a partir da decomposição de nosso corpo como pelas histórias que transmitimos e permanecem além de nós. Aquela que fui ontem já mudou, a ruga que há um ano não existia agora é visível na pálpebra direita, minha percepção do mundo não é mais exatamente a mesma do mês passado, alterada por novas experiências que me alargaram. De certo modo, nascemos e morremos tantas vezes até o fim da vida. E é este o movimento que importa.

Queria dizer isso à amiga que perdeu a mãe de repente. Mas agora minha amiga ouve, mas não pode escutar. A dor a está comendo viva como as formigas africanas. Tudo é horror e absoluto. Mas com o tempo, um período só dela e que não pode ser determinado em parte alguma nem por ninguém, minha amiga vai começar a perceber que a mãe é uma ausência presente no formato das suas unhas, num certo jeito de mexer a cabeça quando fala, na tonalidade rara dos olhos. Está nas palavras e nas histórias que conversam dentro dela, na mitologia familiar que se perpetua, nos sons da memória. E então poderá reencontrar a mãe dentro dela. E levá-la para passear.

E, num dia que sempre chega, viverão as duas como história, como cacos de lembranças encaixados em diferentes rearranjos de vitrais, na vida dos que vieram depois. É pouco, talvez. É tudo o que temos.


(Eliane Brum escreve às segundas-feiras.)



quinta-feira, outubro 14, 2010

Vontade de me declarar


O sonho não acabou
Vale a pena acreditar
Deus criou o amor
E fez um dia eu te encontrar
Queria tanto sentir
o seu abraço e dormir
mas o que eu vou fazer
Se você não está aqui
A noite vem, saudade faz
meu coração perder a paz
Quero te ver, te escutar
Te quero amar
Mas não vê meu amor
E nem sabe quem sou
Como a noite esconde o dia
Vou tentando te buscar
Esconde atrás do seu olhar
A noite vem, saudade faz
meu coração perder a paz
Quero te ver, te escutar
Te quero amar
Mas não vê meu amor
E nem sabe quem sou
Como a noite esconde o dia
Vou tentando te buscar
E quando amanhecer
eu sei que vou estar
te procurando pelas ruas
em qualquer lugar
E quem olhar vai ver
que ainda vive em mim
essa vontade de você
que não tem fim
Mas não vê meu amor
E nem sabe quem sou
Como a noite esconde o dia
Vou tentando te buscar
Esconde atrás do seu olhar
O sonho não acabou...

Cleo




Uma mulher madura,que às vezes brinca de balanço...

Uma criança insegura,que às vezes anda de salto alto!

Por fora a menina que muitos julgam...Por dentro a mulher que poucos conhecem!!!

Para alguns a pessoa mais estúpida do mundo...Para outros uma menina adorável!

Aquela cheia de manias,gostos e reações estranhas,fora do comum...

Aquela pessoa paciente mas ansiosa...

Aquela que não consegue esconder o sorriso...

Aquela que se diverte com pouco...

Aquela que fala pelos cotovelos mas gosta de pensar em silêncio...

Aquela que se magoa fácil mas que sabe perdoar...

Aquela garota orgulhosa mas que reconhece seus erros...

Aquela que tem inúmeros defeitos mas qualidades incríveis....

Não tente entender,não tente rotular,não tente definir...

segunda-feira, outubro 11, 2010

Menos leviandade, por favor

Parecia que tudo ia bem. Na nossa jovem democracia, de apenas 25 anos, tínhamos no primeiro turno três candidatos a presidente com votação significativa por quem podíamos sentir respeito. Lamentávamos os debates de mentirinha, as imagens esculpidas com botox e cirurgias plásticas (para quê?), as promessas de ocasião. Tínhamos preferência por um, divergências com outro, natural e desejável numa sociedade plural. Mas não tínhamos vergonha. Não havia, nesta disputa presidencial, nenhum Fernando Collor de Mello ou Paulo Maluf, cujas biografias dispensam comentários. O segundo turno veio e pensamos: quem sabe agora haverá um debate de verdade e poderemos comparar propostas e idéias? E então começamos a sentir vergonha. Profunda vergonha.

É difícil acreditar que depois de tudo o que vivemos para resgatar democracia e respeito próprio, venham com esta baixaria. A de um falso debate sobre o aborto. Porque uma discussão de verdade sabemos que nenhum dos dois candidatos quer fazer. No finalzinho do primeiro turno, uma campanha anônima na internet transformou Dilma Rousseff em “abortista” e “assassina de fetos”. Como parece que a estratégia das catacumbas colou, com a candidata do PT perdendo votos entre evangélicos e um e outro bispo católico exortando seus fiéis aqui e ali, a inquisição continua e com fogueiras cada vez maiores. De repente, querem nos fazer acreditar que a grande questão nacional é saber se Dilma Rousseff é a favor ou contra o aborto. Que questão é esta?

Existe, sim, uma questão de saúde pública que não deveria ser ignorada por nenhum candidato sério. Segundo reportagem do jornal O Globo deste domingo, o aborto ilegal mata uma brasileira a cada dois dias. Segundo a Pesquisa Nacional do Aborto, realizada pela UnB e Anis, aos 40 anos uma em cada cinco mulheres já fez aborto, o que equivale a mais de 5 milhões de brasileiras. Segundo a mesma pesquisa, 15% das mulheres que abortam são católicas, 13% protestantes ou evangélicas, 16% de outras religiões e 18% não responderam ou não têm religião. Segundo o Ministério da Saúde, o aborto é a quarta causa de mortalidade materna no país. Em algumas regiões do Nordeste, segundo a Rede Feminista de Saúde, chega a ser a principal causa de morte.

Você pode e tem o direito assegurado pela Constituição de acreditar no que quiser, professar a fé que bem entender ou não ter fé nenhuma. O que ninguém deveria poder – seja candidato a presidente ou cidadão – é ignorar a morte de seres humanos. Todos nós, que não somos hipócritas, sabemos que as mulheres mais ricas procuram boas clínicas e abortam em segurança. E todos nós, que não somos hipócritas, sabemos que são as mulheres mais pobres que morrem em procedimentos clandestinos, porque não têm dinheiro para pagar as boas clínicas. Quando estas jovens mulheres morrem, deixam filhos que não podem cuidar e famílias que se desfazem pela sua ausência, provocando problemas sociais em cadeia. Esta é uma tragédia que começa com a morte de uma pessoa e vai causando muita dor pelo caminho dos que ficam. Transformar a vida destas mulheres em moeda de barganha política, como temos assistido no início deste segundo turno, é uma indignidade.

Acho curioso que algumas pessoas que se dizem religiosas acreditam ter o monopólio do discurso da vida. E que estes que acreditam terem privatizado a verdade, ao falar em nome da vida não se preocupem com a morte destas mulheres. Não se coloquem por um minuto sequer no lugar destas mulheres para tentar alcançar seu desespero e sua dor. E então, por empatia e humanidade, perceberem que ninguém deveria morrer por falta de assistência. Assusta-me a rapidez com que estes supostos religiosos julgam e condenam outros seres humanos. Acho a compaixão um sentimento profundo, redentor. E não consigo compreender a compaixão seletiva que move estes dedos em riste.

A morte de mulheres em abortos clandestinos é, sim, uma questão de saúde pública. Que deveria ser discutida seriamente, com informação e profundidade. Mas não é esta a questão que foi lançada na lama desta campanha eleitoral. Aqui, trata-se apenas de demonizar uma candidata em busca dos votos de um certo tipo de devoto. Enquanto alguns grupos de fiéis se lançam cheios de sanha, deitando saliva pelo chão, algumas cúpulas religiosas aproveitam para ganhar alguns pontos de vantagem no embate em torno da questão do aborto, cuja descriminalização vem avançando na América Latina. Por acreditar que os fins justificam os meios, iludem-se que suas mãos seguem limpas.

Eu esperava mais de José Serra. Não há provas de que a lama tenha vindo dos setores mais abjetos da sua campanha. Mas é visível que ele tem empenhado corpo e alma para arrancar toda a vantagem possível da baixaria. Preocupante para alguém que quer ser presidente do país. Eu esperava mais de Dilma Rousseff. Que se comportasse como uma candidata a presidente e colocasse a questão com serenidade, como teve a integridade de fazer no passado recente. Em vez de tergiversar e se encolher diante da
baixaria. A nós, eleitores, cabe a pergunta: quem ganha com isso? Me parece que até quem pensa que ganha, perde.
Tenho assistido perplexa ao show de fervor religioso de ambos os candidatos. E eu que não sabia que Serra e Dilma eram devotos dedicados? Não sei em que país eu andava até agora que nunca tinha notado este ardor místico. Na minha ingenuidade, eu esperava ter a chance de assistir a um programa eleitoral que não fosse apenas espetáculo. E lá está Dilma “agradecendo a Deus pela dupla graça” e fazendo “uma campanha, antes de tudo, em defesa da vida”. Alguém está fazendo uma campanha em defesa da morte? Descobrimos então que Serra fará um governo com “Deus no peito”. Mulheres grávidas desfilam pela tela porque o candidato promete cuidar dos bebês mesmo antes de nascerem (!). Se há algo que os crentes de verdade – e não os que usam a religião para fazer comércio eleitoral – deveriam se preocupar é com gente capaz de reduzir Deus a cabo eleitoral.

Admiro Marina Silva, pela sua trajetória de vida e pela sua integridade em momentos cruciais. Assim como compartilho da sua visão sobre o meio ambiente e o desenvolvimento sustentável. O que nunca me impediu de sentir arrepios ao ouvi-la colocar a teoria científica da evolução, de Charles Darwin, no mesmo patamar da mitologia do criacionismo. Ou quando sugere transformar o aborto em plebiscito. Ou ao declarar-se contra o casamento gay.

Embora suas posições divirjam das minhas nestas áreas, isto nunca me impediu de ter respeito por tudo o que ela é – e o que representa. Pelo menos até agora. É natural e desejável numa sociedade plural ter convergências e divergências. O que é inaceitável é o desrespeito. O que é intolerável é a demonização de pessoas. O que é inadmissível é transformar um problema de saúde pública, que causa morte de gente, em moeda de barganha eleitoral.

Não me interessa saber se Dilma Rousseff e José Serra são contra ou a favor da descriminalização do aborto. O que me interessa é saber o que vão fazer para impedir que estas mulheres continuem morrendo, independentemente de suas crenças. E, neste momento, talvez me interesse ainda mais como vão se comportar daqui para frente diante da baixaria que se transformou este segundo turno eleitoral. Se vão rolar na lama com o que tem de pior neste país. Ou em algum momento vão levantar a cabeça e se lembrar de quem são – e do que querem ser.

A nós, que temos de escolher entre um dos dois para ser presidente do país, cabe renegar a hipocrisia. Mostrar que não caímos neste velho jogo sujo. Deixar claro que esperamos mais, que desejamos mais, que exigimos mais de quem vai nos governar. É duro sentir vergonha do nível da campanha eleitoral ao cargo mais importante do país, mas pior é ter vergonha do nosso voto. Quando candidatos perdem a compostura, cabe a nós, eleitores, manter a nossa. E mostrar a eles que o Brasil mudou.

Ou não mudou?


(Eliane Brum escreve às segundas-feiras.)



sexta-feira, outubro 01, 2010

Sábado é ilusão

Vejo tanta gente sofrendo por aí, achando que sua vida está aquém do que deveria ser, porque tudo deveria ser só bom. Não sei quando nos enfiaram garganta abaixo esta ideia absurda de um estado de felicidade absoluta. Uma espécie de nirvana a ser alcançado em que nada mais nos perturbaria e que seríamos felizes para sempre. Na verdade, só há um jeito de isso acontecer: podemos ser felizes e mortos. Porque este estado imperturbável, imune à vida, só se alcança na morte.
Acho que a grande causa atual de infelicidade é a exigência da felicidade. É o deslocamento do lugar da felicidade para o centro da vida, como um fim a ser alcançado e a medida de uma existência que valha a pena. Se nos lembrarmos bem dos contos de fadas, o “e foram felizes para sempre” era exatamente o fim da história. Era quando o conto morria num ponto final porque não havia mais nada relevante para ser contado. Tudo o que interessava, o que nos hipnotizava e nos mantinha pedindo a nossos pais ou à professora ou a nós mesmos “de novo, conta de novo”, era o que vinha antes. O desejo, as turbulências, os avanços e recuos, os tropeços e os arrependimentos, os erros, o frio na barriga, a busca. Tudo aquilo que é a matéria da vida de todos. O que realmente importa.
Acho impressionante a quantidade de adultos pedindo um final feliz para as suas vidas, para suas histórias de amor, para o sucesso profissional. Não há nenhum mistério no final. Independentemente do que cada um acredita, o fato é que no final a vida como cada um a conhece acaba. Para viver, o que nos interessa não são os pontos finais, mas as vírgulas. Os acontecimentos do meio, o enredo entre o primeiro parágrafo e o último.
A ideia de felicidade como um fim em si mesmo encobre e desbota tanto a delicadeza quanto a grandeza do que vivemos hoje, faz com que olhemos para nossas pequenas conquistas, nossos amores nem sempre tão grandiloquentes, nosso trabalho às vezes chato, como se fosse pouco. Apenas porque nem a conquista nem o amor nem o trabalho é só bom. E há uma crença coletiva e alimentada pelo mundo do consumo afirmando que tudo deveria ser só bom. E se não é só bom é porque fracassamos.
Deixamos então de enxergar a beleza de nosso amor imperfeito, de nossa família imperfeita, de nosso trabalho imperfeito, de nosso corpo imperfeito, de nossos dentes imperfeitos e até de nossas taxas de colesterol imperfeitas. De nossos dias imperfeitos. Escolher como olhamos para nossa vida é um ato profundo de liberdade que temos descartado em troca de propaganda enganosa.
Tanta gente se esquece de viver o que está aí em troca desta mercadoria ordinária chamada de felicidade. Que, como toda mercadoria, tem essência de fumaça. Se tivesse de escolher entre esta felicidade de plástico que vendem por aí e a infelicidade, preferiria ser infeliz. Pelo menos, a infelicidade me faz buscar. E a felicidade absoluta é mortífera, ela mata o tempo presente.
Não tenho nenhum interesse por esta pergunta corriqueira: “Você é feliz?”. Acho uma questão irrelevante. O que me interessa perguntar a mim mesma – e pergunto a todos é: “Você deseja?”
Desejar é o contato permanente com o buraco, com a falta, com a impossibilidade de ser completo. Desejar é o que une o homem à sua vida. Une pela falta. Tem mais a ver com um estado permanente de insatisfação. Não a insatisfação que paralisa, aquela causada pela impossibilidade da felicidade absoluta; mas a insatisfação que nos coloca em movimento, carregando tudo o que somos numa busca permanente de sentido. Desejar é estar sempre no caminho, conscientes de que o fim não importa. O fim já está dado, o resto tudo é possibilidade.
No filme de Arnaldo Jabor, as melhores frases são de Noel, avô do personagem principal, vivido pelo enorme Marco Nanini. Numa ocasião ele diz ao neto: “Ninguém é feliz. Com sorte, a gente é alegre”. E completa: “A vida gosta de quem gosta dela”. Achei de uma simplicidade brilhante. É isso, afinal. É claro que há uns poucos momentos de felicidade, mas, como diz Noel em seguida, eles duram no máximo uns 10 minutos e se vão para sempre. Em vez de ficar perdendo tempo com finais felizes ou se perguntando sobre a felicidade ou invejando a suposta felicidade do vizinho ou se sentindo mal porque não é um personagem de comercial de margarina, vale mais a pena tratar de viver. Tratar de gostar da vida para que ela goste de você.
Aliás, nada me dá mais medo do que gente que vive como se estivesse num comercial de margarina. Se aceitarem um conselho: corram dessas vidas de photoshop. Elas não existem. Gente de verdade vive do jeito possível – e tenta lembrar que o possível não é pouco. Isso não significa se acomodar, pelo contrário. Mas abrir os olhos para a novidade do mundo na soma subtraída de nossos dias, desejar a vida que nos deseja.
É como em outra frase, esta dita por um comprador ambulante de coisas antigas num momento crucial do filme. Um delirante Noel, assustado com a proximidade da morte e disposto a retomar a alegria, sacode na rua o personagem de Emiliano Queiroz, gritando: “Hoje é sábado, hoje é sábado”. E o comprador de coisas que já perderam o sentido diz a frase antológica, digna de um frasista como Nelson Rodrigues: “O sábado é uma ilusão”.
Sim, o sábado é uma ilusão. Então, lembre de viver também de segunda a sexta.

Sobre sonhar com dentes

Tenho recebido inúmeros comentários sobre algum tipo de ajuda com relação à explicação em sonhar com dentes. Entendam que os dentes sã...