quinta-feira, outubro 24, 2013

De quarta à quinta...


Tinto, preciso de mais uma taça de vinho tinto. Em plena quarta, romance de quinta. Debruço-me no parapeito e observo luzes e pessoas em piloto automático. Uns sobem, outros sabem, e meu coração na contramão. Pra cima tem cinema, bem ali na esquina, e pra baixo, algum bar, desses em que sempre tem algum bêbado triste, com os cotovelos no balcão, com um jeans velho e uma camisa listrada aberta no peito. Seu cabelo é desgrenhado, mas você não liga. Estou enterrado nesse apartamento desde aquele “não”. Sem sua boca, sem poesia, sem banho e com a barba por fazer. Retalhos de um quase eu. Apaguei a claridade com os olhos e enxerguei seu meio sorriso – eu adoro as suas covinhas e sua timidez quando sorri -, parece que eu posso sentir você ao meu lado. Parece. O seu maço de cigarros mentolados, abandonado na escrivaninha, ao lado do abajur cor de sorvete de creme. Minha camiseta de time que você usava para dormir continua com o seu cheiro, sua orquídea na varanda não floriu esse ano, e seus discos continuam na estante com os meus… Tudo está no mesmo lugar, só que com saudade. Tudo ali do mesmo jeito, só que cinza. Desde que você partiu eu sou assim, sou só metade, só saudade. Perdi o tom, o ritmo e minhas cores. Fiquei mo-no-cro-má-ti-co.

Vez ou outra, lembro-me de quando éramos. Você vestida de sorriso e vestido-rosa-clichê. O batom era claro e sempre tinha um enfeite no cabelo. Teve aquela noite em que seus olhos borraram, lá pelas duas da manhã, quando te pedi pra ficar. Mas eu pedi pra ficar de verdade, disse que seria seu melhor namorado e que ficaríamos sempre juntos. Você lacrimejou, piscou os olhos com um brilho diferente e a sua voz faltou. Você queria vodka, mas eu disse que teria que ficar bêbada da minha saliva. Você então fez café. O filtro de papel tinha acabado pela manhã e você usou o coador de pano. E foi o meu melhor café. Escolheu um DVD da minha coleção para assistirmos de conchinha durante a madrugada. Tinha ‘500 dias com ela’, mas você preferiu um musical francês. ‘As canções de amor’, com aquele ator que você adora: Louis Garrel. Fumou quase um maço de cigarros aquela noite. Lembro que pela manhã, falou meio dormindo que me amava e eu dei um beijo na sua testa suada e disse que também te amava. Mas você não ouviu, e acho que mesmo que se me ouvisse, talvez não acreditasse.

Eu não sei o nome desse sentimento que sobra quando deixamos de ser, mas eu sei que dói. Eu sei que essa porra de sentimento mastiga o coração da gente. É quando não existe mais ninguém para apertar suas mãos. Sinto-me morto depois que você fechou a porta e partiu aos berros pelas escadas, aos prantos. O senhor Benjamin, meu vizinho do 513, veio me perguntar no dia seguinte se eu tinha te magoado muito, e eu respondi apenas com um olhar triste. Eu não precisei usar nenhuma palavras e ele entendeu direitinho. Sempre soube que aquele velhinho gentil e falastrão era mais inteligente do que a maioria dos meus vizinhos. Teve uma vez que ele bateu na minha porta para pegar açúcar emprestado, disse que tinha feito as contas erradas no mercado. Descobri mais tarde que era aniversário da morte da esposa dele, a senhora Dolores, e então, na verdade, o que ele procurava era apenas companhia para tentar não pensar muito nela. Ainda bem que eu fiz o convite para ele entrar, lembro-me de que jogamos xadrez a tarde inteira.

Tomo mais uma taça de vinho e observo a chuva, daqui de cima, longe de toda essa gente. Perdi a vontade de encontrar outro sorriso senão o seu. Fico com o meu silêncio, engarrafando vontades. Mordo até a língua numa conversa desajustada comigo mesmo, enquanto tento te convencer de que. Aposto que está desperdiçada no sofá, conversando com seus fantasmas. Tenho certeza de que está de pijamas, com uma panela de brigadeiro, enquanto assiste a uma comédia romântica bem dramática. Sua 3×4 agora assombra e desliga o sono. Tentei queimá-la, mas o palito me acordou quando começou esquentar meu polegar e o indicador. Antes do sol acordar resolvo dormir, na sala mesmo, e você me decepciona mais uma vez quando não aparece nos meus sonhos. Sabe, eu já não sonho com você faz um tempo. Quando sóbrio, pergunto-me quando esse intervalo acabará – dizem que a tristeza é só um intervalo entre um amor e outro, então, eu torço para que o relógio caminhe rápido, que o tempo carregue essas lembranças empoeiradas que moram debaixo do tapete, para enfim eu despedir-me de você

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